
Por Nilson Monteiro
Só com meus óculos, caminho por essa rua cinza nesse domingo quase molhado e quase friorento. Não fossem suas floreiras coloridas e chafarizes chorões, o cinza assumiria um tom quase mórbido para quem, como eu, caminha a tentar decifrar o fundo das almas.
Há poucas delas nessa rua de hoje. Há muitas que me habitam.
Os óculos não respondem jamais. A rua é o corpo e o espírito desta Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, com todas suas cores, credos, classes, crimes, dores, idades e sons que por ela passam nos dias de ofício.
Tênis são silentes demais para solitários. Não respondem jamais, mesmo que eu os provoque a um diálogo.
Noutros dias, milhares de pés carregando bandeiras verde-amarelas ou vermelhas ou de outro matiz mastigam seu petit pavê pouco ligando ao seu comprimento ou ao significado de tapete estirado no coração da cidade. Ou procuram, milhares, alucinados, seu comércio que oferece quase tudo.
As pernas, já não seguras assim, caminham por entre os cúmplices domingueiros, alguns deles, as pernas diriam, suspeitos, muito suspeitos, raros acantonam em pedaços vazios dessa rua de hoje. Bobinhas essas pernas, provoco!

Há pedintes aqui e ali. Aos domingos é besteira. Até os bolsos estão cinzas.
Há dezenas de moradores amontoados embaixo das marquises, donde encorpa o cheiro de aguardente e cobertores há muito sem água.
As lojas estão fechadas, são agressivas as portas mudas, imagens engorduradas pelo tempo e pichações inócuas, que ofendem pela existência.
Na centenária Confeitaria das Famílias, peço uma coalhada com nata e um café passado no coador. Estou só à frente do balcão e os atendentes quase sonolentos, piscam duro, mas servem gentis. Nesse átimo, conversam comigo, sem saber, Poty, Leminski, Helena e outros.
Pronto, o corpo e o espírito estão preparados para novas indagações. Ou só para caminhar, sem cantar.
Ensaio, mesmo silente, uma canção quase juvenil, interpretada em cores vivas por Marisa Monte – “Amor, i love you”. Despeço-me das flores.


Linda declaração para Curitiba, uma cidade que é referência no País. Parabéns pela crônica!!! 😙
Grato, Roberta. As cidades estão cicatrizadas em nós.
Elisiê e Cláudia, grato, babys, pela publicação. A Ideia de vocês ainda vai dar muito o que falar. E ler. Beijos.