Por Antônio Mariano Júnior
Lá no sofá preto do Ouro Verde.
Conversávamos.
Falou assim, ou mais ou menos assim, o entorno ouviu:
“Aceito sugestões de canções para o show”.
Tasquei: “A canção que chegou”, do Cartola e do Nuno Veloso.
Do disco “Angenor”, que fisga os meus pontos cardeais todas as vezes
que o coloco para rodar.
(…)
Ela: Cida Moreira.
O show dela: “Soledade Solo – ao vivo, na Casa de Francisca”.
Em: Londrina.
Na: programação artística do 37º Festival Internacional de Música de Londrina.
(…)
Voz e piano.
Que formalidade, que nada! Mania de achar que… ah, deixa para lá.
A Cida estabeleceu, prontamente, empatia com o público num espetáculo, a rigor, intimista; mas, de fato e efeito, confessional. Interativo.
Como se ela estivesse em sua casa, ao piano tocando e conversando com amigos, com pessoas embevecidas com o seu fazer artístico.
(…)
Chorou a perda de um dos seus idos; gargalhou com as próprias histórias, foi ácida, irônica, abusada, gentil, serena, foi Maria e sagrada, pois.
(…)
O reencontro de Cida e Londrina foi marcante.
Duas apresentações: uma com Maria Alcina; outra Soledade, seu inventário musical.
Delicadezas e austeridades na voz, quando canta e quando fala;
quando toca dói aqui e ali, em nós.
Gosto de quem delimita seus territórios com firmezas.
(…)
Fiz postagens de todos os tamanhos desde que ela aqui chegou; antes até.
Inscrevi amor e respeito sobre o nome dela.
Quem leu, quem curtiu, quem nos viu, ela mais eu, em Londrina, olha só:
Ela e eu nunca trocamos confidências;
nunca falamos dos respectivos perrengues,
sequer sobre com quais mãos arrancamos cotidianamente a vida.
(…)
Nunca estiquei um lençol na cama do quarto de hóspedes para ela;
não sei de cor o telefone fixo da casa dela, nem ela tem a senha
do wi-fi aqui de casa.
(…)
E, no entanto, nós nos sabemos.
Nós sempre nos saberemos.
(…)
Ela crê em Cida, a maior de Todas.
Em todo santíssimo dia jogo beijos e intimidades
para a minha, a sua, a Nossa Senhora.
A Cida, em que também creio, rezou por mim,
na Basílica de Aparecida.
(…)
Tá, o show.
Ela: alteza no palco.
Eu: todo coisinha, na primeira fila.
Coisinha = encantadinho.
Eu: num tal de arruma-as-muletas-as-muletas-caem-pega-as-muletas-ai-caraio.
Porque deixei meus óculos de leitura na mochila, que deixei num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico, naquele Teatro.
(…)
Sem óculos de perto, batendo palma, filmando, fotografando, muleta caindo,
lenço de papel no chão, limpa coriza e lágrimas minhas;
o vizinho de cadeira já incomodado, andei pra ele;
fui um espetáculo à parte.
(…)
Tô eu filmando, todo coisinha e tal.
Ela anuncia que vai tocar algo para mim.
As coisas tremeram. As muletas desmaiaram novamente,
o único lenço de papel sumiu, o vizinho de cadeira ao lado
entregou tudo a Deus.
O vídeo desfocou, a imagem tremeu e ficou isso abaixo.
Postei mesmo assim.
A vida também é assim.
(…)
Fez outra boniteza do Cartola, enroscou num pedaço da letra.
E daí?
A vida enrosca para todo mundo, ué!?
(…)
Cida, olha quanta luz no céu,
olha um avião voando sozinho
sobre o perobal.
(…)
Londrina também ama a Alcina.
Não esquece de dizer, Maria Aparecida.
(…)
Não se esqueça de mim.
Não desapareça.
Pega um casaquinho quando sair de casa.
Te amo, Aparecida.
Um beijo do seu,
Antônio.


Adorei!!! Que lindoooooo
Um Beijo!