Por Reinaldo César Zanardi
Realidade ficcional. Assim pode ser definido o livro “Tempos de cigarro sem filtro”, primeiro romance do jornalista José Machio, o Ganchão, pela Kan Editora (2017, 152p.). Fatos reais dão vida a personagens inventados cujas trajetórias se confundem com a de gente real, que ajudou torturar e matar ou foi torturado e morto, durante o regime militar, em letra minúscula – mesmo.

Quem passou dos 60 anos, ou os menores desta faixa que leram atentamente livros de História, terão a curiosidade sobre quem inspirou o delegado – homem da lei – apoiador da ditadura, que se elegeu deputado. Negão, braço direito do homem da lei que passa por cima lei, nasceu de quem? O informante da Polícia, dedo-duro, alcaguete da Boca, encontra muitos correspondentes por aí.
Lozinho, Ruço, Jaso e Maria compõem um universo que luta para viver um dia de cada vez. A realidade impõe um cotidiano bruto e sonhos são escassos. Nada é planejado em longo prazo. O prazer é momentâneo. Só a dor não é passageira. A vida não é fácil e o regime não tenta deixá-la menos difícil. O discurso oficial semeia o progresso, sob a ordem do porrete. Ou ame-o. Ou deixe-o.
É nesse cenário, que Ruço encontra o legado do pai, comunista. Em Polska, Lacerdão e Alemão, a resistência tenta resistir, mas o regime faz sangrar. “Essa nossa guerra está perdida. Não temos o povo. O povo acredita no que querem que acredite. O povo é manada. Erramos no cálculo lá atrás. Foi erro estratégico. Pensamos que o povo iria para as ruas.”(p.120) A crítica de Alemão à esquerda e suas habilidades continua atual.
O livro conta histórias – em 31 capítulos – em uma estrutura não linear. Frases curtas revelam vírgulas e pontos que encadeiam fatos, marcam acontecimentos, criam clima. A linguagem apresenta características da oralidade conferindo uma cadência peculiar e, por vezes, tão rude quanto a vida dos personagens. “Tempos de cigarro sem filtro”, leitura forte, que aborda uma parte da História do Brasil, que não pode ser esquecida nem amenizada.
Veja o vídeo com a entrevista do jornalista José Maschio para AlmA Londrina Rádio Web



Deixe um comentário