
Por Elisiê Peixoto
Crescemos com a figura de pai e mãe heróis, que vão nos proteger. Mas, quando a idade deles chega, nossos heróis precisam dos nossos cuidados, o papel é invertido, e lidar com isso não pode se tornar um problema, e sim uma demonstração genuína de amor.
Por esses dias tenho pensado muito nos meus pais. Talvez porque tenho observado e escutado sobre algumas situações relativas a pais e filhos. Em especial, a pais que ficaram velhos. E que, de repente, tornaram-se um problema para os filhos. Mas espere um pouco. Como assim? Os pais que criaram, cuidaram, ensinaram, amaram, protegeram… eles envelheceram! E agora que deixaram de ter o mesmo vigor, a mesma audição, a mesma visão, o mesmo espírito, não servem mais para conviver?
Meus pais já morreram, minha mãe faleceu ainda jovem, na faixa dos 60 anos, e meu pai aos 80. Ela ainda muito ativa e participante, mesmo com o coração comprometido. Meu pai, com suas implicâncias e bom humor acentuados pela idade, teve o coração parado numa UTI depois de alguns dias internado. Dizer que é fácil conviver com pessoas idosas e cheias de manias é irreal. Não é fácil, mesmo porque os jovens acham que nunca vão envelhecer na vida. Sempre muitos ansiosos, rápidos, com tanto futuro pela frente, esquecem-se que os pais foram a base de tudo e que se a família existe, estruturada ou não, existe porque um dia os pais estavam por perto. Fisicamente ou emocionalmente ou financeiramente ou espiritualmente. Sei lá. Mas os pais existiram. Isso é fato.
Esse conceito de velho é relativo. Aos meus olhos, julgo-me jovem e apta para muitas coisas. Aos olhos dos meus filhos, já não sou essa esperteza toda. Para os meus futuros netos, quem sabe, serei mesmo uma vovozinha. Para os meus amigos, sou como eles, com vitalidade e disposição. A palavra “idosa” passa longe. Mesmo porque ninguém quer envelhecer, vamos combinar. Minha mãe, quando fez 40 anos, deu um jantar para as amigas. Lembro-me de olhar todas aquelas mulheres reunidas na sala e pensar: “Quantas velhinhas juntas!” Isso não é hilário? Sim, o tempo mudou, o conceito de idade mudou, a visão é outra. Uma mulher aos 40 anos é jovem, sarada, em plena atividade sexual, desempenhando cargos, livre de tabus e preconceitos e feliz.
Voltando aos pais e de como amo os meus filhos, apenas uma vaga ideia de ser deixada ao lado e pouco lembrada – como tenho visto na casa de muitos – ou, quando lembrada, ser um peso ou um problema, faz meu coração doer. Quero continuar sendo amada, respeitada nas minhas limitações, no meu progressivo envelhecimento, nos meus esquecimentos, nas minhas manias. Quero tê-los por perto, ser amparada, cuidada e protegida quando os anos se tornarem pesados para carregar. Gente, pai e mãe têm que ser tratados como pérolas cultivadas. Eu e você estamos envelhecendo todos os dias. Crescemos com a figura de pai e mãe heróis, que vão nos proteger. Mas, quando a idade deles chega, nossos heróis precisam dos nossos cuidados, o papel é invertido, e lidar com isso não pode se tornar um problema, e sim uma demonstração genuína de amor.
Quase no final da vida, eu observava o meu pai vendo televisão e mexendo no controle remoto com a dificuldade de uma criança. Ele, que lidou com números durante uma vida, lia dois jornais inteiros diariamente, livros e mais livros, se atrapalhava todo para mudar os canais. Sim, as sequelas da velhice existem. E vão existir para você e para mim. E a falta de paciência também existe, mas é nesse momento que precisamos entender que esse quadro vai se repetir. E que os nossos filhos observam a forma que os avós são ou foram tratados.
Precisamos, sim, ser menos irritadiços, impacientes, bravos e rancorosos. Pais erram. Nós erramos. Mas sempre é tempo de uma reconciliação, de manifestações de amor, de conserto, de generosidade, de perdão. Nada é pior nesta vida do que ser esquecido num canto. E isso deve acontecer à revelia de tudo que enfrentamos na vida: saber que nossos pais, mesmo velhinhos e lentos, esquecidos e limitados, merecem estar ao nosso lado. Totalmente amados, aquecidos, guardados e respeitados. Amanhã seremos nós.


Adorei o artigo “Como nossos pais…”. Imprime a realidade pela qual todos passaremos. Tenho meus pais idosos e cuido deles como duas joias raras. O dia em que se forem, sei que meu chão faltará….
Fátima, é isso aí. A gente olha e quer te-los por perto, debaixo da nossa proteção e cuidado. Isso é amor, respeito, consideração. Um abraço.
Lindo texto ! Eu considero obrigação cuidar de nosso ” velhinhos”, sempre com muito cuidado, alegria, compreensão pelas dificuldades … acima de tudo amor. Partilhar muitos momentos juntos , não sabemos quando vão partir e a falta será imensa.
Sim, e você é exemplo disso. Filha que zela pela vida da Diva, cuida dos mínimos detalhes, preocupada, amorosa. Deus enxerga tudo isso, assim eu creio. bjs
Cada vez que leio suas crônicas , entendo por que sempre gostei do que escreve. Essa em especial, deve ter sido escrita pra mim que estou passando um momento muito difícil da minha vida que é ver minha mãe na UTI, após um AVC . Se já cuidava dela antes, agora me dói na alma vê-la contida no leito pra não arrancar soro e sonda. Sua confusão mental me mata aos poucos. Deus permita que a tenha mais tempo comigo, pra sentir seu amor que é tão forte na minha vida! 🙏🏻🙏🏻🙏🏻