
Por Elisiê Peixoto
O Brasil é um país com enorme diversidade musical e que reúne estilos e vozes para todos os gostos. Mas, certamente, um estilo tipicamente brasileiro é a Bossa Nova, que completa 60 anos e revelou grandes nomes da música popular. Começou com um grupo de jovens músicos, compositores e poetas. Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes são os precursores. O estilo musical fez e faz sucesso e, após gerações, permanece vivo. Esta sessentona tem estilo, classe, beleza e um charme carioca que fez dela uma referência nacional e internacional.
A Bossa Nova acaba de se tornar uma senhora. Completa em 2018 nada mais, nada menos, que 60 anos de idade. Os mais jovens talvez a conheçam de ouvir falar, escutar algumas canções e até ler sobre intérpretes que marcaram toda uma geração. Mas a Bossa Nova (a palavra bossa era uma gíria carioca que significava jeito, modo), sem dúvida alguma, foi uma revolução no cenário musical brasileiro, talvez a mais importante. E, desde o final da década de 50, vem encantando diversas gerações com fortes influências do samba, jazz, choro e blues.
Como falar de Bossa Nova e não pensar em João Gilberto? Sim, foi com ele que tudo começou, em 1958, com batida e harmonia diferentes do violão de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira. Dono de uma voz adocicada, tranquila, suave, gostosa, este homem de poucas palavras deu voz ao estilo genuinamente brasileiro que é conhecido lá fora com absoluto sucesso. O baiano apresentado por Antônio Carlos Jobim (1927–1994) na contracapa do histórico primeiro álbum do cantor, “Chega de saudade”, lançado pela extinta gravadora Odeon em 1959, está com 86 anos. Tornou-se uma das maiores referências da Bossa Nova. E até hoje, ao cantar, faz a plateia calar encantada. Na verdade, são tantos nomes importantes que deram vida à Bossa Nova que citar apenas João Gilberto seja injusto. Mas esse grande cantor, compositor e violonista nascido em Juazeiro é um dos maiores criadores do estilo e com a sua voz poética ganhou os palcos do mundo inteiro. E toda a reverência também deve ser dada para Antônio Carlos Jobim, um gigante do estilo, outro grande divulgador da Bossa Nova, considerado até hoje um dos maiores cantores e intérpretes brasileiros; e Vinicius de Moraes, nosso grande “poetinha”, com seu jeito irreverente e seu inseparável copo de uísque, emocionando com as letras que até hoje soam como hinos de amor.
A sessentona Bossa Nova não foi um ritmo de arrastar multidões. Mas, quando escutada, mesmo que pela primeira vez, causa emoção e enche o ambiente com acordes e letras deliciosas. Na maioria das vezes, foi interpretada por nomes expoentes como João Gilberto, Roberto Menescal, Antônio Carlos Jobim, Toquinho, Edu Lobo, Nana Caymmi, Ronaldo Bôscoli, Vinicius de Moraes, Nara Leão, Baden Powell, Marcos Valle, Carlos Lyra, Claudette Soares, Alaíde Costa, Francis Hime. “Chega de saudade”, de Vinicius de Moraes e Tom Jobim; “Bim bom”, de João Gilberto; “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; “Ela é carioca”, de Vinicius de Moraes; “Eu sei que vou te amar”, de Tom Jobim; “Soneto da fidelidade”, de Vinicius de Moraes; “Águas de março”, de Tom Jobim; “Se todos fossem iguais a você”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, fizeram grande sucesso e onde são tocadas e interpretadas ainda mexem com as emoções de qualquer plateia. Hoje a bossa nova também tem interpretações espetaculares como na voz de Leila Pinheiro, reconhecida como uma “cantora da bossa nova”. Sem falar de Rosa Passos, que carrega o rótulo de “João Gilberto de saias” . E não é por acaso: a cantora, violonista e compositora baiana é mesmo esplêndida. A bossa nova tem músicas que atravessaram gerações e que, mesmo reinventadas em arranjos e harmonias, são lembradas e estão mais vivas do que nunca.
Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda
Que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim
(Chega de Saudade foi escrita por Vinícius de Moraes (letra) e Antônio Carlos Jobim (música).Composta em 1956, foi gravada em 1958 por Elizeth Cardoso. A gravação ficou reconhecida como o primeiro registro fonográfico da bossa nova)

“A Bossa Nova nasceu no final da década de 50, época em que no País tudo dava certo. Fui a uma Jam Session na Faculdade de Arquitetura do Rio de Janeiro onde estavam os craques da nova batida que estava deixando a moçada encantada. E daí que chegou o disco de João Gilberto e que me encantou também. Uma época maravilhosa que completa 60 anos. Tom Jobim, Edu Lobo, Vinicius de Moraes, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, Wanda Sá, Silvinha Telles, Nara Leão, Leny Andrade e muitos outros. Letras e músicas mais suaves que falavam do amor, do sorriso e da flor. Sem falar na canção “Garota de Ipanema” que atravessou o mundo fazendo o maior sucesso. Bossa Nova é tudo de bom na nossa música!” (Ana Marta Garcia, jornalista)

“Foi no final dos anos 60 e começo dos anos 70 que curti a Bossa Nova, o nosso jazz! Boas lembranças com João Gilberto, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Nara Leão, Roberto Menescal, Johnny Alf, Astrud Gilberto e outros que estavam começando a mudar, devido à forte influência da MPB dos festivais, que chegavam fortes, como Edu Lobo, Chico Buarque, Geraldo Vandré, Gil, Caetano, Jorge Bem e até Roberto Carlos, que se iniciou na Bossa Nova, porém seguiu seu caminho com a Jovem Guarda. Foi um período musical extremamente fértil. Minhas amigas e amigos tinham uma formação musical clássica, e eu nunca havia estudado música, mas tocava violão de ouvido e aprendi observando outras pessoas tocarem. Mas fizemos barulho nas noites londrinenses, com serenatas, em barzinhos como Barbante, Arquimedes, O Cantinho. Lembro-me da época da FUEL, quando ingressei na faculdade, e os alunos de diversos departamentos se reuniam para ouvir Bossa Nova. Alguns bares nas ruas Paranaguá e Espírito Santo tornaram-se reduto de uma moçada alegre e que curtia boa música. Foi uma época maravilhosa.” (Celso Kagawa, 63 anos, trabalha com materiais elétricos)

“A música de maneira geral entrou em minha vida desde que nasci, pois meu pai sempre foi um apreciador de boa música e não tenho dúvida que minha maior e principal influência foi ele. Já com relação à Bossa Nova, eu comecei a gostar desse gênero mesmo sem saber como se chamava. Isso aconteceu através de “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinicius. Não tenho dúvida que essa foi a canção que me chamou atenção, mesmo não sendo a música que deu origem ao gênero, sendo essa “Chega de saudade”, dos mesmos autores. Com isso, tive curiosidade de conhecer outros clássicos e também os compositores do gênero. Inúmeras canções de diversos compositores fazem e sempre farão parte do meu repertório: Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, Carlos Lyra, João Donato, entre outros. Isso sem falar nos principais intérpretes, como João Gilberto, Pery Ribeiro, Nara Leão, Leny Andrade. O que me chama atenção neste gênero são dois fatores: a forte influência que exerceu em artistas e ouvintes no mundo todo, sendo que até hoje é mais divulgada e valorizada fora do que aqui no Brasil; e também a quantidade de compositores, intérpretes, instrumentistas, arranjadores com tamanha qualidade e criatividade. Seria até injusto tentar mencioná-los aqui, pois sem dúvida eu cometeria injustiças. Isso é assunto para outro debate. Para quem quiser conhecer mais o gênero, fica a dica dos livros “Chega de saudade”, “A onda que se ergueu no mar” e “Ela é carioca”, todos do jornalista Ruy Castro. Vale ressaltar que a Bossa Nova não foi um movimento que se destacou somente no âmbito musical. Também influenciou no cinema, na cultura, nas atitudes e no modo de vida de seus apreciadores.” (Luiz Gustavo Forte, 42 anos, administrador de empresas)

“Sou filha de pai e mãe apaixonados pela música brasileira, cresci ouvindo MPB. A Bossa Nova é um gênero musical que sempre fez parte da minha vida, do meu dia a dia. E escutá-la me faz sentir sempre em casa. Minhas músicas favoritas são “Chega de saudade”, de Tom Jobim, e “Lobo bobo”, de Carlos Lyra.” (Gabriela de Andrade Fabian, 22 anos, estudante de Arquitetura e Urbanismo)

“A Bossa Nova foi um movimento que ganhou magnitude no Brasil no começo dos anos 60, sob a influência da música norte-americana, mais especificamente do jazz contemporâneo e que foi mesclada com o samba. Foi assimilada pelo músico brasileiro de uma forma tão inesperada e fascinante aos olhos dos americanos que até o genioso Frank Sinatra rendeu-se a ela. À harmonia importada foram adicionadas as letras criativas e inéditas e um balanço rítmico jamais imitado pelos próprios músicos que influenciaram o movimento. Tudo perfeito: Antônio Carlos Jobim, Johnny Alf, Dick Farney, Amilton Godoy, Luís Eça, Ivan Lins, entre outros; com as cordas (violão e contrabaixo) de Baden Powell, João Gilberto, Luiz Bonfá, Carlos Lyra, Rosinha de Valença, Joyce Moreno, Toquinho, Roberto Menescal, Luís Chaves, Azeitona; e compositores/intérpretes como Edu Lobo, Marcos Valle, Chico Buarque, Francis Hime, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, Milton Nascimento. Os desdobramentos que essa escola proporcionou são espetaculares. Prova disso é a infiltração do músico brasileiro nos festivais de elite mundo afora. Tenho orgulho de ter participado desse movimento desde o início, fazendo meu trabalho como músico em São Paulo e Londrina. Sou vanguardista da bossa/jazz com inúmeras apresentações ao longo dos 30 anos de carreira. Com o maestro Vitor Gorni no sax tenor e barítono, com o produtor musical Pedro Franciscon e alguns músicos de São Paulo e Rio de Janeiro, vivi uma época bacana, gravando nos estúdios da Cruzeiro FM/Londrina, jingles, vinhetas para emissoras e músicas veiculadas na programação da rádio na década de 80. Trabalhei na noite londrinense, no “Coração Melão”, dos irmãos Takeda. Além de outros trabalhos, uma época de ouro. Continuo a tocar e a fazer música entre um paciente e outro, já que trabalho com medicina oriental. Porém, a música sempre fará parte da minha vida e a Bossa Nova também!” (Iramar Joelson Machado, 69 anos, acupunturista e naturopata clínico)


Legal, Elisiê !!! VAleu, gostei muito de tudo. Abração,
Que bela oportunidade nossa de assistir um show com tantos nomes célebres da Bossa Nova!!!Ótima matéria !!!👏👏👏👏