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Desvendando o mal de Alzheimer

12 de maio de 2017 por Claudia Costa 8 Comentários

O mal de Alzheimer é uma doença que acomete milhares de pessoas, principalmente os idosos. Estima-se que existam no mundo cerca de 35,6 milhões de pessoas com a Doença de Alzheimer. No Brasil, há cerca de 1,2 milhão de casos, a maior parte deles ainda sem diagnóstico

A doença se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem), causada pela morte de células cerebrais. Quando diagnosticada no início, é possível retardar o seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo melhor qualidade de vida ao paciente e à família.

O mal de Alzheimer é uma doença degenerativa( piora com o tempo)  e os danos causados ao cérebro, até o momento, não podem ser revertidos ou interrompidos. Até agora, o Alzheimer era considerado uma doença que iniciava com a degeneração das células do hipocampo, área do cérebro da qual dependem os mecanismos da memória. Segundo estudos recentes de pesquisadores italianos, descobriu-se que a doença, diferentemente do que se acreditava até então, não surge na área do cérebro associada à memória, mas sim da morte de neurônios da região vinculada às mudanças de humor. O estudo, coordenado pelo professor associado de Fisiologia Humana e Neurologia da Universidade de Campus Biomédico de Roma, Marcello D’Amelio, foi publicado na revista científica “Nature Communications”.

O novo estudo, conduzido em colaboração com a Fundação IRCC Santa Lucia e do CNR de Roma, no entanto, aponta que o mal de Alzheimer surge na área tegmental ventral, onde é produzida a dopamina, neurotransmissor vinculado à mudança de humor.

Segundo os pesquisadores, como um efeito dominó, a morte dos neurônios responsáveis pela produção de dopamina desacelera a chegada desta substância ao hipocampo, causando assim uma falha que gera a perda da memória, principal sintoma da doença. Isso explica por que o mal de Alzheimer é acompanhado, grande parte das vezes, pelo desânimo e pela depressão. Entretanto, os estudiosos ressaltam que as mudanças de humor associadas ao Alzheimer não são consequência do surgimento da doença, mas sim um “sinal de alerta” sobre o início da patologia.

A hipótese foi confirmada em laboratório, quando várias terapias destinadas a restaurar os níveis de dopamina foram administradas em animais. Nos testes, foi observado que tanto as memórias quanto a motivação de viver, cuja falta causa depressão, foram recuperadas. “A área tegmental ventral relança a dopamina também na área que controla a gratificação. Na qual, com a degeneração dos neurônios dopaminérgicos, também aumenta o risco de perda de iniciativa”, explicou D’Amelio. Com a descoberta dos pesquisadores italianos, aguarda-se num futuro breve novas perspectivas de tratamento e prevenção da doença.

“A família deve procurar conhecer o máximo sobre a doença e como o paciente interage com o mundo ao seu redor. “, salienta o neurologista Carlos Boer

Nesta entrevista, o médico londrinense Carlos Alberto de Almeida Boer, neurologista com mestrado em Clínica Médica e com 43 anos de atuação profissional na área, fala sobre o mal de Alzheimer, seus sintomas e como os familiares devem atuar para manter a qualidade de vida do paciente. O médico salienta ainda que algumas pessoas estão interpretando erroneamente a descoberta dos pesquisadores italianos. “Já havia lido esta notícia que induziu pessoas não envolvidas no tema a interpretações errôneas – descobriu-se a causa do mal de Alzheimer –, o que não é verdade.”

A leitura atenta do artigo evidencia que a descoberta é apenas em que região do cérebro ocorrem as primeiras anormalidades – não se descobriu a causa da doença. Vários neurotransmissores são depletados com a morte de neurônios, acetilcolina, dopamina, serotonina, entre outros. Mudanças no humor são frequentes no início, confundindo com depressão, isto já é bem conhecido.

A doença progressivamente envolve todo o cérebro, ocorrendo depósito de substâncias amiloides e formação de novelos fibrinoides nos neurônios causando sua morte, predominando nas regiões temporal e frontal. “Não sabemos qual mecanismo desencadeia a doença e qual a sua causa”, salienta o neurologista Carlos Boer.                                         Nesta entrevista ao PORTAL IDEIA DELAS, o neurologista esclarece alguns pontos importantes sobre a doença.

O mal de Alzheimer é uma doença incurável e que se agrava com o passar do tempo, é uma demência degenerativa. Por que ela acontece?

Não se conhece a causa da doença, apenas são reconhecidas as alterações que ela provoca no cérebro.

Quais os principais sintomas do Alzheimer?

A perda da memória é o sinal mais marcante. Porém, dependendo do estágio da doença, os sintomas se modificam. No início, surgem sintomas que se confundem com depressão. As pessoas tornam-se mais caladas, tristes, introspectivas, e são consideradas teimosas pelos familiares, por negarem fatos ocorridos, porque simplesmente se apagaram de sua memória. Na evolução começam a se perder, a terem dificuldades em se localizar no tempo e no espaço. À medida que a doença progride, ocorrem dificuldades para reconhecer os familiares e nesta fase a afetividade começa a diminuir, vão migrando para o “seu mundo”. Numa fase mais avançada, são comuns os delírios e as alucinações, querem voltar para sua casa, estando nela. Muitas vezes as alucinações são de terror, levando à agitação, e podem gritar. Já não aceitam as dietas, perdem peso e vão se definhando.

Tem como prevenir o Alzheimer? Quais são os fatores de risco que favorecem o aparecimento desta doença?

Há muitas discussões sobre este tema, mas sem comprovação. O que está claro é que a presença de comorbidades, como hipertensão arterial, dislipidemias, diabetes não controlada, alcoolismo e outras, apenas antecipam e/ou aceleram o surgimento dos sintomas da doença.

Ela é hereditária?

Um número reduzido de casos, ao redor de 5%, é considerado hereditário. Entretanto, quem tem familiares com a doença tem risco um pouco maior de desenvolver Alzheimer, quando comparado com quem não possui familiar com a doença.

Que exames diagnosticam essa doença?

Ainda não existem exames para o diagnóstico de Alzheimer. Os exames são realizados para excluir outras causas de demência que sejam tratáveis.

Qual é o tratamento para um paciente com Alzheimer? Tem como retardar o avanço dos sintomas e a perda de funções cognitivas (memória, orientação, atenção e linguagem) causados pela morte de células cerebrais?

Tratamos os sintomas e não a causa. São usados medicamentos para ativar a memória e, muito frequentemente, também antidepressivos e antipsicóticos.

A doença segue seu curso inexorável?

Alguns fatores podem contribuir para retardar o aparecimento dos sintomas, ou mesmo ter evolução mais lenta. São eles: nível cultural e intelectual elevado, ter hábitos de vida saudável, controlar a pressão arterial e os níveis de colesterol e glicose, praticar atividades físicas, dieta mediterrânea, não abusar de bebidas alcoólicas, aprender novas habilidades, hábito da leitura e escrita.

A população brasileira está envelhecendo e o mal de Alzheimer é conhecido como doença de velho (caduquice). Mas cada vez mais cedo percebemos pessoas não tão velhas com algum tipo de demência. Por que isto está acontecendo?

A doença de Alzheimer tem início a partir dos 65 anos e, à medida que a idade avança, maiores serão os riscos de ela surgir. Após os 90 anos, 40% das pessoas podem desenvolver Alzheimer. Existem casos de início mais precoce, após os 50 anos de idade, mas não são frequentes.

Manter a qualidade de vida de um paciente de Alzheimer é um grande desafio para a família. Quais são os cuidados fundamentais para garantir a qualidade de vida do paciente?

Nas fases iniciais da doença, estimular atividades mentais, como palavras cruzadas, jogar baralho, quebra-cabeças, ler e comentar os artigos. Manter dieta saudável, praticar atividades físicas. À medida que a doença progride, manter pulseira com o nome, endereço e telefone, evitar que saia desacompanhado. Participar de reuniões familiares. Nas fases mais avançadas, deve submeter-se a fisioterapia, as dietas devem ser readequadas, fracionadas a cada três a quatro horas, forçar a ingestão de líquidos.

Que conselho o senhor dá para os familiares de um paciente com esta doença? Como todos podem contribuir para uma convivência saudável e também para que a família não adoeça junto com o paciente?

A família deve procurar conhecer o máximo sobre a doença e como o paciente interage com o mundo ao seu redor. No início, os familiares se irritam e chamam a atenção do paciente porque ele nega fatos, diz não ter acontecido. E, na verdade, aquilo se apagou da sua mente, para ele não existiu mesmo e não adianta ficar insistindo, só vai irritar o paciente. Quando perde a orientação no tempo e no espaço, mas ainda tem atividades de vida diária independente, deve-se evitar o que é comum, passar alguns meses na casa de cada filho. Isto é uma tormenta, o paciente se confunde mais, não sabe onde fica o banheiro, se agita durante a noite.

É importante a família participar de grupos de autoajuda?

Sim.

Que conselho o senhor dá para os jovens que a cada dia terão mais contato com pessoas com algum tipo de demência?

Precisam se informar sobre o tema. Existem sites com artigos orientando os familiares. “Simplesmente Alice”, um filme que retrata muito bem como um paciente com Alzheimer se comporta e como a doença progride, é uma excelente forma para adquirir tal conhecimento.

A convivência com animais domésticos (por exemplo, cães e gatos) pode ajudar no “tratamento” dos pacientes, questão de afetividade/troca de afeto?

Durante algum tempo sim. Mas, quando a afetividade se perde, o interesse por pessoas e animais deixa de existir.

O senhor recomenda que as famílias participem de algum grupo de autoajuda para troca de experiências e também para, de alguma forma, serem cuidadas, acolhidas. O senhor indica algum grupo ou entidade?

Se os familiares trocarem informações, experiências e conhecimentos sobre seus enfermos, muitas atitudes podem mudar no tratamento e nos cuidados com o portador do mal de Alzheimer, para o bem de ambos os lados.

Os familiares devem acessar a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ). www.abraz.org.br

Arquivado em: Saúde

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

Reader Interactions

Comentários

  1. Sadi Chaiben diz

    21 de maio de 2017 em 20:25

    Parabéns pelo tema e entrevista. Importante também sobre saber investir. Deveríamos aprender na infância. Se soubermos guardar desde jovem, teremos um futuro tranquilo.

    Responder
  2. Luis Fernando Rodrigues diz

    21 de maio de 2017 em 20:49

    Gostei do formato do Portal. As seções permitem o internauta dirigir-se diretamente para o assunto que prefere! Parabéns Claudia e Elisie pela iniciativa.

    Responder
  3. Issao Udihara diz

    21 de maio de 2017 em 21:01

    Artigo interessante . Parabéns Cláudia Costa pela IdeiaDelas!!

    Responder
  4. André diz

    22 de maio de 2017 em 14:52

    É uma doença extremamente angustiante de se acompanhar a evolução. O indivíduo vai deixando aos poucos de ser quem ele é. Esquece-se dos familiares, amigos e de sua rotina. Apenas memórias distantes permanecem até um ponto onde a pessoa se torna um vegetal. Se esquece de como comer, se alimentar, falar, andar. Perde-se completamente a autonomia. Espero muito que a ciência descubra a cura para esse mal.

    Responder
  5. Gislaine diz

    31 de maio de 2017 em 08:11

    Espero nunca ter essa doença. Se não tiver solução tomara que tenha legalidade para eutanasia.

    Responder
  6. DENIZE MAIONE GRANDE diz

    12 de junho de 2017 em 09:27

    A informação sobre a doença ajuda no comportamento da família diante dos cuidados que o paciente necessita. Excelente entrevista!

    Responder
  7. neusa pinto diz

    4 de dezembro de 2017 em 10:30

    Sei bem a dificuldade do que é isso tdo ! Graças ao bom Deus,agora temos acesso ,mesmo que poucos ! a varias informações e grupos de ajuda ! No meu tempo ,nada disso existia ,,,,é pesado D+ . ….Parabéns ,pela proposta de elucidação !<3 <3

    Responder
  8. Elizeth diz

    16 de janeiro de 2018 em 11:12

    Parabéns pela excelente e esclarecedora matéria.

    Responder

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