
Eles chamam a atenção, isto não resta dúvida. Mas também demonstram personalidade, aceitação, têm padrões estéticos próprios e assumem isso sem maiores problemas. Pessoas com gostos diferenciados e assumidos são felizes e levam a vida numa boa
Por Elisiê Peixoto
Cabelos coloridos e cortes alternativos, roupas diferenciadas, corpos tatuados e que fogem aos padrões estéticos, carecas, gente que se gosta, que se aceita, que faz a diferença. Eles chegam, acontecem, chamam a atenção nas ruas, nos lugares, e não estão preocupados com os padrões impostos. Mulheres e homens, gente jovem, gente madura, que se revelam por meio de cores, estampas, penteados, com ou sem cabelo, tatuagens, roupas e acessórios nada convencionais. Será uma forma de se expressar diante da vida? De mostrar uma personalidade marcante? De chamar a atenção? Quem sabe apenas um estilo próprio? O Ideia Delas conversou com algumas pessoas que tomaram uma postura, se curtem, são bonitas, saudáveis e estilosas. E o melhor de tudo: têm sua marca registrada! Vamos conhecê-las?
O apresentador Marcão Kareca assumiu a sua “careca” com estilo. E que acabou se tornando o seu grande negócio profissional, a sua marca registrada. Nunca teve problemas com a calvície, a contrário, tirou proveito do visual, sempre com sucesso!


Feliz, realizada e decidida
“Acho que desde adolescente eu sempre procurei ter um estilo alternativo, fui criada ouvindo rock. Mas foi nos últimos anos que aprendi a me vestir, porque finalmente fiquei de bem com meu corpo. Não dá para ter estilo se você não se sente bem e confiante. A última adição ao meu estilo foram cores. Eu era muito adepta do preto e pouco a pouco estou me adaptando a colocar mais cores, esse ano meu desafio é tentar usar algo colorido todos os dias. Lógico que nem sempre é possível, mas pelo menos estou fugindo de usar só preto. O próximo passo serão as estampas. Como designer, acho que estou perpetuamente buscando por inspiração. Sou apaixonada por arte, sempre que posso vou a museus e exposições, mas a real inspiração pode estar em qualquer lugar. Eu admiro os artistas que buscam suas obras no dia a dia, dentro da rotina, nos detalhes que às vezes a gente deixa passar. Acho que é um processo de treinar seu olhar para as possibilidades que a vida oferece. Quanto ao cabelo, foram mudanças orgânicas (risos). O ruivo foi algo que pensei por muito tempo antes de fazer. Tive que escutar bastante terrorismo. Falavam que o meu cabelo ia cair. Creio que as pessoas sempre reagem de maneira ruim a mudanças, tem gente que é muito apegada com as coisas. Fiquei mais de dois anos com o ruivo, e aí no fim da faculdade eu tinha decidido estudar fora e fui tirando pouco a pouco até chegar no loiro. E do loiro eu resolvi brincar com o rosa, e ter cabelo colorido foi algo bem legal. Hoje mesmo, enquanto escrevo, estou voltando ao castanho, acho que chegou a hora de voltar ao meu eu natural e admito que cuidar de cabelo cansa bastante. As pessoas que têm estilos alternativos querem encarar o mundo de maneira diferente, tentam desafiar as normas preestabelecidas. Um cabelo colorido ou tatuagens muitas vezes exteriorizam o que sentem. O que admiro em mim em relação à aparência é o meu corpo. Ainda mais porque isso foi um processo, não é do dia para a noite que você ama um corpo que todo o mundo ao seu redor diz que é errado. Mas acho que o que eu realmente gosto mais em mim é a capacidade de aprender comigo mesma e evoluir como pessoa. No momento estou morando em todo lugar e lugar nenhum (risos). Passei os últimos sete meses em Paris, onde completei a primeira parte do mestrado. Neste mês estou no Brasil, de férias, e aqui fico indo e vindo entre Londrina e a minha cidade natal, Ivaiporã. Mudo-me para Florença, Itália, no mês que vem, para o próximo trimestre de aulas, e em agosto volto para cá. Aí em janeiro do ano que vem eu volto a Paris para
apresentar meu projeto final do mestrado, e então vou procurar uma empresa para estagiar lá na Europa, preferencialmente na área que quero seguir, o Plus Size.”(Isabela Gil, 26 anos, estudante de moda. Cursa mestrado em Design de Moda Contemporâneo na IFA Paris) As fotos de Isabela são de Lucas Reis, fotógrafo, artista e tatuador.


Comodidade e charme
“Cheguei a Londrina em 2000, e até então eu nunca tinha raspado a cabeça. Fui da primeira turma de modelos, logo quando a Desirée Soares Galvão Bueno inaugurou o Studio Desirée Soares na cidade. Comecei a fazer vários trabalhos nacionais, quando conheci, em 2002, um produtor de São Paulo que me chamou para fazer um trabalho e sugeriu que eu raspasse a cabeça. Confesso que no começo não gostei muito porque fiquei diferente demais. Porém, fui me acostumando e nunca mais deixei crescer o cabelo. Hoje eu me gosto, acho que combina comigo e não me vejo mais com cabelos (risos). Quando raspei, me chamavam de Seal, como o cantor. No final acabei tendo o meu estilo próprio, sem falar na comodidade, eu mesmo raspo a minha cabeça durante o banho e estou pronto!” (Nilson Caetano, 42 anos, fotógrafo e modelo)


Um estilo indiano de ser
“A maneira como a gente se veste tem a ver com os nossos valores e identidade. E a vida toda busquei preservar, desenvolver e expressar a minha. Ser eu. E mostrar quem sou através do que visto, do que faço no meu trabalho e do que tenho na minha casa (imagine uma sala com uma estátua indiana de um metro e um lustre turco – sim, esse é meu apartamento). Quando cheguei do Rio de Janeiro, há 41 anos, essas roupas indianas não eram nada comuns aqui em Londrina. Acho que eu era a única que usava. Chamavam a atenção. Eu passava na rua e as pessoas viravam a cabeça e olhavam. Ou franziam a testa, com estranheza e desconfiança. Muitas vezes me confundiam com uma cigana. Uma vez, quando caminhava pelo calçadão e me aproximei de uma moça com uma criança pequena, essa começou a puxar freneticamente a barra da saia da mãe, meio assustada, dizendo ‘mãe, olha uma cigana, olha uma cigana’. E esse não foi um fato raro: quantas vezes ao sentar-me para tomar um lanche no Grill Lanches, que existia na Praça Gabriel Martins, alguém vinha discretamente e eu já sabia o que ia perguntar: se eu lia cartas. Não era fácil manter esse estilo diferente. E muitos anos depois, cansada de ser sempre observada, resolvi deixar minhas saias indianas de lado e comprei umas roupas que eu chamava ‘de professora’ (dei aulas na UEL durante 26 anos). Mas, alguns meses depois, ao me ver refletida numa coluna espelhada do Unibanco, não me reconheci. Não era ‘eu’. E aí, na viagem seguinte a SP e RJ, renovei o meu estoque de roupas indianas. Minha roupa me define. Amo cores vivas e elas são assim, alegres. Gosto de conforto e liberdade e as saias indianas me trazem essa sensação. Elas são soltas e dançam quando eu ando. De vez em quando se enroscam num para-choque de carro, mas faz parte. Quantas vezes, no primeiro contato com as pessoas, elas me disseram: ‘ah!, mas eu já lhe conhecia, eu sempre lhe vejo passar na rua, com umas saias coloridas’. Pois é, elas se tornaram a minha marca registrada.” (Sônia Weill, professora)


Multifacetada
“Sempre fui assim! Quando adolescente, usava meias coloridas até os joelhos, salto plataforma e saia plissada. Não busco inspiração em algum lugar fora de mim, vem tudo de dentro, de quem eu sou e da forma como me sinto ou não confortável em relação ao mundo. Acredito que nossa linguagem imagética diz muito a nosso respeito quando a gente se permite ser quem é. Geralmente o meu cabelo muda com as minhas fases. Por exemplo, agora ele está vermelho porque estou em uma fase em que busco força e poder na minha vida. Mas já estive com ele platinado quando minha vibe era mais sexy e feminina. Já estive com ele raspado, quando o que eu queria mostrar era que minha feminilidade não dependia de um cabelo comprido. São ideologias, entende? Acredito que não há como definir essas pessoas que não se sentem confortáveis com a manifestação de identidade massificada. Até porque rotulá-los seria tirar deles a sua individualidade. Mas vejo que uma grande característica em comum é o fato de que não queremos ser vistos pelo que nosso exterior denota, mas pelo que nosso interior é capaz de mostrar independente da roupa que vestimos. Não somos pessoas iguais por dentro, não somos constantes, e não precisamos agir como se fôssemos buscando tendências a seguir. Eu amo quem eu sou! Amo como me vejo no espelho e como toda mudança que eu faço no meu corpo não muda em nada em quem eu sou de fato, apenas agrega ainda mais valor naquilo em que eu acredito. Cada tatuagem marca uma época, um momento, uma sensação. Cada cabelo diferente revela uma face, cada mudança estética liberta uma Viviane nova que se junta às outras e me faz ser exatamente a mulher que eu sou e da qual me orgulho muito! Eu sou hoje o melhor que eu posso ser hoje.” (Viviane Dias Ennes, editora de textos, 31 anos)

O belo cabelo afro
“Falando um pouco sobre o meu estilo em relação ao meu cabelo afro, sempre usei e adoro ele assim, cacheado e armado. Quando criança, usava sempre tranças feitas pela minha mãe, já na adolescência comecei a usá-lo um pouco mais solto e mesmo sem qualquer referência na minha época, ao contrário dos dias de hoje. É bem comum ver cada dia mais as pessoas assumindo essa beleza da cor e do cabelo afro. Uns seguem ‘moda’, digamos assim, esquecendo que essa característica faz parte da nossa raça que é referencial de beleza e a autenticidade da cor negra. Tenho cuidados com o meu cabelo, uso alguns cremes para hidratar e algumas receitas vejo na internet e faço em casa mesmo. Aceitar o estilo black de ser, sem seguir padrões impostos e ditados pela nossa sociedade, pela mídia. Amo o meu cabelo com estilo próprio de ser, talvez seja esse o segredo da felicidade e também uma forma de falar à sociedade que ser negra é ser linda e feliz.” (Luana Cordeiro dos Santos, 34 anos, promotora de vendas, aluna do curso de Direito, participa do grupo das Black Divas)



A arte da tatuagem
“Sou formado em Artes Visuais pela Unopar e trabalhei na área de criação em agências e estúdios de design por dez anos. Em 2012 morei em em São Paulo por um curto período e voltei em 2014 para montar o meu primeiro coletivo de design com mais três amigos. Acabei tomando gosto pelo empreendedorismo, foi quando vi que poderia iniciar uma nova profissão. Comecei a tatuar com ajuda dos amigos e também incentivado por parte deles, namorada e família. Sou tatuador há quatro anos. Eu e o meu sócio temos dois estúdios em Londrina, com uma equipe de 12 pessoas. O nosso foco principal é proporcionar sempre tatuagens exclusivas para os nossos clientes. Pensamos, desenvolvemos e aplicamos a nossa arte na pele das pessoas”, explica Ricardo. Para o profissional, a tatuagem não é modismo. “Creio que está sendo mais bem recebida, o mundo está mais moderno, a tatuagem é uma forma de expressão incrível. Acredito que você carregar algum sentimento, alguma memória, alguma lembrança, algum tipo de respeito, uma ideologia na pele, é algo muito forte, e também uma forma expressiva de estar de bem com os seus ideais. Gosto de todas as minhas tatuagens, não me arrependo de nenhuma, e todas tem algum significado para mim. E é exatamente isso que as pessoas precisam acreditar: a tatuagem tem um significado pessoal”. (Ricardo Garcia, 31 anos, empresário/tatuador). Os estúdios ficam na Rua Espírito Santo, 935 e na Avenida JK, 2099/Londrina/PR.
Fotos/todas de arquivos pessoais dos entrevistados
Arte da capa: Fernando Peixoto
Revisão de textos: Jackson Liasch (fone (43) 9 9944-4848 – e-mail: jackson.liasch@gmail.com)


Elisiê Peixoto, a matéria ficou maravilhosa!
Ameiiiii👏👏👏👏
Parabéns pela matéria Elisiê ! O importante é respeitar o gosto das pessoas.
Parabéns. Muito boa matéria.
Uau, simplesmente!