
Por Celso Mattos
Depois de 16 horas de viagem, com uma conexão em Paris, cheguei ao Cairo. Minha primeira experiência na capital do Egito foi com o trânsito caótico da cidade. Tudo parecia muito surreal e assustador. Imagina uma metrópole como São Paulo sem semáfaros e faixas de pedestres. Tudo bem, estou exagerando, existem alguns semáfaros no Cairo, mas eles são apenas enfeites porque ninguém obedece.
Para um turista não habituado com a cidade, atravessar uma rua no Cairo é um verdadeiro teste de sobrevivência. Mas, para os egípcios é normal e, para a minha surpresa, eles param no meio da rua e ficam conversando uns com os outros enquanto os motoristas buzinam e desviam dos pedestres. O mais inacreditável é que a cidade registra um baixíssimo índice de atropelamento. Mas, em compensação, é raro encontrar um carro sem um amassadinho.
Quando falamos em Egito o que vem primeiro a nossa cabeça são as famosas pirâmides de Quéops, Quefren e Miquerinos e, claro, a Esfinge, reconhecidas como as maiores obras construídas pelo homem. Eu imaginava que para chegar até a esses monumentos teria que andar muito me arrastando pelas areias do deserto. Que nada, as pirâmides estão dentro da cidade e bastam uns 15 minutos de táxi para estar diante delas. Aliás, em frente às pirâmides passa uma enorme avenida. Decepcionados? Pois não fiquem, a visita às pirâmides é uma experiência única, faz tudo valer a pena.

Mas vamos adiante porque o Cairo tem muito a oferecer. Você pode visitar o Museu do Papiro e ver como é feito o papel mais antigo do mundo e, depois fazer comprinhas. Outra grande atração é o Bairro Árabe e o Mercado El Khan el Khalli, um aglomerado de ruelas com centenas de lojas que vendem de tudo: lenços, roupas, cristais, jóias, especiarias, luminárias, tapetes, essências, castanhas. Aqui você descobre que vai precisar comprar outra mala porque além de bonito é tudo muito barato!

Depois de um dia de compras, não deixe de fazer um passeio noturno de barco pelo rio Nilo com direito a jantar e a um show de dança do ventre. O passeio dura duas horas e você terá de brinde uma bela vista do Cairo. Outra grande atração da cidade é o Museu Egípcio, o maior do continente africano. Haja história ali dentro!
A travessia do Deserto do Sinai

Este foi o momento mais tenso e mais interessante da viagem. Pelas leis egípcias, qualquer ônibus com mais de 10 turistas precisa ser escoltado pela polícia para atravessar o Deserto do Sinai que dura em média 7 horas, do Cairo até o Monte Sinai. O mesmo deserto percorrido por Moisés e os israelitas que fugiram da escravidão no Egito e vagaram por 40 anos antes de chegarem à Terra Prometida.
Durante o trajeto, uma parada para almoço às margens do Mar Vermelho, sim, aquele que Moisés apontou o cajado e ele se abriu ao povo israelita. Quem não se lembra do filme “Os 10 Mandamentos”, com Charlton Heston no papel de Moisés? Mais uma revelação, o Mar Vermelho é azul!
Bom, aqui começa a parte da viagem que mais me tocou. Durante a travessia, você vai encontrar as crianças beduínas que vagam pelo deserto. É de cortar o coração. Elas sabem falar apenas duas frases em inglês “one dólar” e “Please, food”. Essas crianças vivem sozinhas no deserto, muitas não têm famílias e vivem em acampamentos beduínos em um cenário de total desolação. Não há cidades, apenas alguns povoados. Durante o dia, um sol escaldante e à noite um frio de fazer tremer o queixo.
Depois de passar a noite em um dos três hotéis da região, segui de ônibus até a tríplice fronteira entre Egito, Israel e Jordânia. Mais um momento de grande tensão. Você é cercado por soldados armados com fuzis e escaneado por raios-x da cabeça aos pés. Mas é só manter a calma e falar o menos possível. Fui à Jordânia para conhecer a cidade de Petra (pedra em grego), uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo que foi esculpia nas pedras pelos Nabateus 200 anos antes de Cristo. Descoberta em 1812, pelo explorador suíço Johann Burckhart, hoje Petra é considerada um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. A cidade se tornou famosa depois de aparecer no filme “Indiana Jones: a Última Cruzada”.
Mar Morto: onde nada sobrevive
Depois de passar pela fronteira entre Jordânia, Israel e Palestina, fiz uma breve parada no Mar Morto. Esse foi o meu primeiro contato com o Oriente Médio. O nível de sal no Mar Morto é de 37% enquanto em um mar normal é de 3%. É tanto sal que nenhum tipo de vida cresce nele. Por isso mesmo se chama… “morto”. E justamente pelo excesso de salinidade que ninguém afunda. Aqui, muitas pessoas aproveitam para passar a lama do mar pelo corpo porque os minerais existentes na região fazem bem à pele.
Uma dica para as mulheres e, homens também. Em Jericó tem uma loja que vende produtos de beleza produzidos a partir da lama do Mar Morto. São caros, mas prometem milagres à pele. Não comprei porque eram muitos caros, mas, com certeza, mais baratos que uma aplicação de botóx. Jericó, assim como Belém, fica na Palestina, território já reconhecido como país por mais de 190 nações da ONU, incluindo o Brasil e o Vaticano.
A travessia do Mar da Galileia

A travessia do Mar da Galileia leva em torno de 50 minutos e é feita em barcos de madeira semelhantes ao da época de Cristo. Local de grande importância para o Cristianismo porque aqui segundo os cristãos, Cristo teria feito o milagre da multiplicação dos peixes. Depois da travessia, fui almoçar no restaurante La Fontana de Maria, em Nazaré, onde provei o famoso peixe de São Pedro, pescado ali mesmo no Mar da Galileia. Vários restaurantes da região oferecem a iguaria. A história do “peixe de Pedro” tem referência em uma passagem bíblica.
Outra grande atração de Nazaré é a Basílica da Anunciação onde Maria teria recebido a visita do anjo Gabriel que anunciou que ela seria a mãe do filho de Deus. Depois de fazer um tour histórico-teológico de três dias pela cidade, segui para Belém e Jerusalém. Fiquei hospedado em Belém porque é mais barato que Jerusalém, além de ser menos turística, Belém fica em território palestino onde tudo é mais em conta. Para chegar a Jerusalém basta atravessar o muro que separa as duas cidades, muito fácil para os turistas, porém, complicadíssimo para os palestinos.
Jerusalém: a cidade dos profetas

Meu primeiro contato com Jerusalém foi surpreendente. Dividida entre cristãos, judeus, muçulmanos e armênios, Jerusalém é uma cidade única. Apesar das divergências religiosas todos respeitam as crenças individuais e você é livre para fazer suas orações na Igreja do Santo Sepulcro ou ir rezar no Muro das Lamentações, lugar sagrado para os judeus, além de fazer visitas agendadas às mesquitas. A cidade foi conquistada, destruída e reconstruída várias vezes, e cada parte revela fatos diferentes do passado. Seu coração é a Cidade Velha, um labirinto de becos estreitos e arquitetura histórica dividido em quatro bairros — cristão, muçulmano, judeu e armênio.
Apesar de ser a cidade sagrada para as três maiores religiões monoteístas do mundo, Jerusalém não se resume à religião. Os mercados árabes e cristãos da cidade conquistam os turistas e peregrinos que passam diariamente por ali. Além disso, existem ótimos restaurantes e cafeterias na cidade.
De Jerusalém partir para Te Aviv, a capital de Israel. Com cerca de 500 mil habitantes, é conhecida como a “pérola do Oriente Médio”. Cidade das festas, da orla com clima de Rio de Janeiro, das startups, dos gays e das galerias de arte. À esquerda da orla de Te Aviv está a antiga cidade de Jaffa que possui um longo histórico de batalhas, vitórias e derrotas, invadida por faraós e até por Napoleão, hoje é um local onde árabes, cristãos e judeus se misturam entre suas ruelas e antigas construções.
Deixei para o final, a resposta à pergunta que todos me fazem: “Não é perigoso viajar para aquela região?” É menos perigoso do que viajar por qualquer grande cidade brasileira. Me senti seguro e fui muito bem acolhido pelos egípcios, palestinos, jordanianos e judeus.
**** Celso Matos é jornalista em Londrina.


Muito bons os temas abordados e os entrevistados!