
Por Claudia Costa e Leonardo Andrade

O engenheiro Benedito Teixeira Júnior com os amigos do Círculo Militar de São Paulo.

A sauna é possivelmente o principal elemento da cultura finlandesa a ganhar o mundo, se desconsiderarmos as bandas de metal melódico. “Sauna” é a única palavra de origem finlandesa na língua inglesa, e possivelmente no português. Outros povos também têm ricas e antigas tradições de banhos comunitários, mas na Finlândia isto é particularmente forte. Uma das descrições mais antigas da sauna finlandesa data de 1112, feita pelo santo ucraniano Nestor. Na Crônica Primária, ele descreveu um ambiente “quente com paredes de madeira, em que os banhistas nus se batiam com galhos e depois viravam água fria sobre si”.
Hoje em dia, estima-se que haja mais de dois milhões de saunas na Finlândia, para uma população de 5,3 milhões. Seca ou úmida, a sauna é, além de tudo, uma questão de identidade nacional. E no Brasil, este país tropical em que os extremos do frio finlandês são inimagináveis, o que leva os homens à sauna? As mulheres também a frequentam, mas ainda é um hábito predominantemente masculino.
O engenheiro civil Benedito Teixeira Junior, 60 anos, mora na capital paulista, onde frequenta a sauna do Clube Círculo Militar de São Paulo. Ele explica que há mais de 48 anos faz sauna e se sente bem, com mais disposição física e mental. “A pele fica mais macia e estou sempre com os amigos”, diz ele. Benedito frequenta a sauna três vezes por semana e seu grupo é muito unido. “Somos aproximadamente 40 amigos, profissionais de diferentes áreas de atuação que estão na faixa etária dos 40 aos 90. Toda quinta-feira uma dupla de amigos oferece o jantar para o grupo”, explica o engenheiro. Sobre o que conversam enquanto fazem sauna, ele afirma discutirem todos os assuntos, mas o tema preferido do grupo é a política.

O auditor fiscal Sadi Chaiben, 70 anos, vai à sauna do Londrina Country Club três vezes por semana, geralmente depois de realizar seus exercícios no clube, onde também é diretor. Ele costuma passar em média 40 minutos, começando pela sauna úmida e partindo para a seca por um tempo menor. Antigamente, Chaiben costumava seguir o costume finlandês e intercalar com duchas geladas, mas parou por recomendação médica. Ele acredita que a recuperação de uma bursite que o incomodava deve-se em parte ao relaxamento que o ambiente proporciona.

Chaiben frequenta saunas há 43 anos, geralmente associadas a algum esporte. Quando começou, no Canadá Clube, ia com os amigos depois de jogar bola. Com frequência, o grupo partia da sauna para o happy hour. Anos depois, Sadi levou o hábito consigo para o novo clube. A sauna é uma parte importante de sua vida e que ele prioriza. E, com a consistência do hábito, vem a familiaridade com os demais frequentadores. O ambiente é descontraído e a conversa flui fácil. “Na sauna você fica sabendo de tudo que acontece na cidade”, conta. Fala-se de trabalho, de política, de esportes, da vida em geral. Até consultoria espontânea acontece. O sujeito fazendo a barba ou só relaxando logo ao lado é contador, advogado, engenheiro… Então, se tiver dúvidas a sanar, é uma oportunidade.
A primeira sauna a gente nunca esquece
O Ideia Delas enviou um emissário (este estagiário que vos escreve) à sauna do Country Club para obter informação empírica de primeira mão (portanto, este parágrafo e os próximos assumem um ar testemunhal). Com Chaiben como guia e facilitador do meu ingresso, fui conversar com os associados. Apesar de ser um sujeito com o nariz perenemente congestionado, em cinco minutos de sauna úmida eu já estava respirando pelas duas narinas. Uma pena que o efeito não resistiu a uma noite de sono. Talvez resistisse se eu fizesse disso um hábito.
A melhor analogia que me vem à mente para descrever o ambiente da sauna é uma confraternização de empresa com menos roupa. Conversa amena, sem grandes picos, tudo muito tranquilo. Alguns nem falam, assumindo uma postura de ouvinte enquanto deixam o calor trabalhar em seus corpos. Em dado momento, acabei conversando com Nelson Filho, professor de curso técnico de eletricista que ministra aulas para presidiários, e já aprendi algo sobre como me portar numa situação semelhante enquanto ele fazia a barba.
Já durante a sauna seca, a conversa enveredou para a comunidade e para a ideia de estar confortável com o próprio corpo. Trabalho, algumas opiniões gerais sobre a vida e sobre pessoas, bem o que eu esperava da conversa com Chaiben. No horário em que fui, às 16h, os frequentadores eram da faixa etária acima dos 40 anos, e praticamente todos têm o hábito de frequentar a sauna há mais de 10 anos. “Vira um vício bom, que você acaba priorizando” foi um comentário que ouvi várias vezes.
O empresário londrinense Luís Carlos Euzébio, 60 anos, é frequentador assíduo da sauna da Associação Recreativa e Esportiva Londrinense (AREL) há mais de 20 anos. Diariamente, mais de 120 associados frequentam aquele espaço do clube. O grupo da sauna da AREL é muito unido e está sempre realizando confraternizações. “Homem em geral se reúne e conversa assim em volta de bebida, mas na sauna você tem isso sem a bebida. É uma conversa sóbria em um ambiente em que todos vão ‘desarmados’, tranquilos.” Mesmo discordando sobre temas como política, fica tudo bem. E na sauna todos eles têm “a solução para o Brasil”, comenta, rindo.

O empresário frequenta a sauna do clube, onde também é diretor, pelo menos quatro vezes por semana, sendo que no domingo é sagrado. “A sessão de domingo é um ritual. É um ponto final da semana”, explica ele. Apesar de apreciar a sobriedade das conversas na sauna, Euzébio não dispensa as conversas de teor mais etílico com os amigos da sauna, em jantares do grupo todas as terças-feiras. O grupo é bem organizado e formou uma confraria com 50 integrantes. “Cada um contribui com 100 reais mensais para financiar as bebidas, e eles se dividem em trios, que assumem em turnos os custos e a responsabilidade pelo jantar em si.”

*** Leonardo Andrade é acadêmico do 3º ano do curso de Jornalismo da UEL e estagiário do Portal Ideia Delas.


Adorei a matéria! Parabéns! E será que as mulheres também curtem uma sauna? Acho que sim! Porque certamente deve agregar muitos benefícios, a começar pela pele! Vou experimentar!
Exelente artigo.
Na Filandia, se visitam entre os amigos e é muito comum irem todos nus pata sauna nu, pais, filhos, a família que visita e a família anfitriã.
Belissima Matéria!
Um hábito tão antigo e saudável para o corpo e mente, deveria ter mais divulgação.
Parabéns pela escolha do tema!
Martin/ circulo militar de São Paulo.
Belíssima Matéria!
Um hábito tão antigo e saudável, não só para o corpo, como também para a mente, merece esta divulgação!
PARABÉNS!
MARTIN Mendes Círculo Militar de São Paulo