Por Leonardo Andrade

“Quando a gente passa as férias viajando de moto, vê as coisas de um jeito completamente diferente. De carro, a gente está sempre confinado e, como já estamos acostumados, nem notamos que tudo que vemos pela janela não passa de mais um programa de televisão. Sentimo-nos como um espectador, a paisagem fica passando monotonamente na tela, fora do nosso alcance. Já na motocicleta não há limites. Fica-se inteiramente em contato com a paisagem. A gente faz parte da cena, não fica mais só assistindo, e a sensação de estar presente é esmagadora. Aquele concreto zunindo a uns 15 centímetros da sola dos pés é real, é o chão onde se pisa, está bem ali, tão indistinto devido à velocidade que nem se pode fixar a vista nele; e, no entanto, para tocá-lo basta esticar o pé. A gente nunca se desliga daquilo que está acontecendo.” (Robert M. Pirsig, em Zen e A Arte da Manutenção de Motocicletas). O motociclismo tem uma imagem romântica na cultura popular. A sensação de presença, de realmente viver o momento, descrita por Pirsig, é uma constante nas representações literárias deste estilo de vida.
Praticamente, desde que as motocicletas se popularizaram, grupos de motociclistas têm se reunido em grupos organizados para dividir esta experiência e socializar. Dois motoclubes (MCs) americanos disputam o título de mais antigo do mundo, sendo eles o Yonkers MC (de Yonkers, no Estado americano de New York) e o Portsmouth MC (de Portsmouth, Ohio). A disputa se dá em torno das datas de registro oficial dos clubes: o Yonkers foi fundado como um clube de ciclismo em algum ponto dos anos 1890, e fez a transição para motociclismo em 1903, enquanto o Portsmouth é registrado como clube de motociclismo desde 1897. Independente disso, a história do motociclismo organizado tem no mínimo 115 anos.

Hoje em dia, motoclubes e motogrupos (MGs) existem em todos os continentes, até na Antártida. Aliás, terminologia aqui é um negócio importante, então, antes de continuar, vamos definir motoclube e motogrupo:
Um MC é uma organização de motociclistas com no mínimo seis membros, sendo um deles o presidente, e necessariamente possui uma sede física. É comum que membros de motoclubes contribuam com mensalidades para a manutenção da sede e o financiamento de atividades. Todo MC tem um estatuto que deve ser seguido por seus integrantes.
Um motogrupo é uma organização de motociclistas que pode ter menos de seis integrantes, o que não impede a existência de MGs de “grande porte”. Geralmente, não tem uma sede física nem exige o pagamento de mensalidades por seus integrantes. MGs também têm suas próprias regras, estatutos e hierarquias.

Tanto em MCs quanto em MGs, cada novo membro tem de ser aprovado e deve assinar o estatuto. O mundo do motociclismo organizado é consideravelmente ordeiro, hierárquico, e uma relação de irmandade por afinidade entre seus membros costuma ser parte do pacote. Os integrantes desses grupos se tratam como irmãos, e isto, às vezes, se estende a integrantes de organizações amigas. Fica claro que, apesar de as motocicletas estarem no centro deste estilo de vida, o motociclismo organizado não se encerra aí.
Marta Ribeiro Pinto (Marta Loba), motorista aposentada de 69 anos, residente de Passa Quatro, no sul de Minas Gerais, mora há 20 anos com a companheira também motociclista Claudineia Carneiro. Marta tem 50 anos de motociclismo e participa de dois MGs: o Motociclistas Selvagens e o Trivale Brasil. Marta tem uma Virago 535cc de 2002 e um triciclo. “O meu, que sou modesta, é 1.6, motor de Gol a gasolina.” Ela pretende participar da 3ª Grande Travessia União dos Povos, do dia 8 de julho. Rogerio Carlos de Oliveira, também do Trivale, é um dos organizadores da Travessia, e diz que o evento vai para o livro Guinness de recordes como a maior parada de triciclos do mundo. “Esperamos uma média de 500 triciclos que farão o desfile. Fizemos uma pesquisa e chegamos neste número. É um evento para duas ou três mil pessoas, no giro, pelo final de semana.”

“Estamos na terceira edição do evento. O recorde no Guinness Book é de 141 triciclos, em Taiwan. No ano passado, andamos em 304 na cidade de Areias. Esse ano, estamos com a cartilha do Guinness debaixo do braço, treinando direitinho, para que possamos, definitivamente, colocar nosso nome lá”, diz Roger.
Travessia Entre os principais benefícios deste envolvimento, Marta destaca as pessoas de todos os cantos do Brasil – e até de fora – que conheceu e continua conhecendo, os eventos, e a possibilidade de fazer o bem. Por exemplo, com eventos beneficentes para auxiliar asilos, orfanatos ou a APAE. “O motociclismo tem ajudado muita gente nesse sentido.” A Travessia mesmo arrecadará brinquedos em bom estado para doação.
Além de se verem quando saem para rodar, ou em eventos, churrascos, etc., os integrantes dos dois MGs têm grupos no Whatsapp. Para entrar no dos Motociclistas Selvagens, é preciso ser adicionado pessoalmente pelo presidente Regis Granzotto, que é o único com esta autoridade. Novos integrantes só são admitidos depois de Granzotto averiguar seus antecedentes e vida pregressa, e mediante a assinatura do estatuto, cujo número de páginas Marta mencionou de passagem: “Duzentas”.
Valdevino Araújo (conhecido no meio como Cigano), comerciante de 52 anos e presidente do Tropa Estradeira MC, do Rio de Janeiro, arremata: “Não basta você ter tempo, dinheiro e vontade para entrar no MC, é uma coisa que exige comprometimento”. O Tropa Estradeira tem reuniões mensais às quais todos os 23 integrantes devem comparecer, salvo por motivos de trabalho ou doença. “E, com muita frequência, a gente se reúne em aniversários de componentes. Aqui no Rio a gente costuma cada um levar um quilo de carne e uma caixa de cerveja. A mulherada leva o bolo, e tem aquela confraternização.”
Além disso, os integrantes do Tropa Estradeira visitam bastante os amigos de outras cidades, independente de haver algum evento. “Eu tenho uma amizade muito boa lá no Guarujá com o Guegué, que hoje em dia está no Lobo Doido. Vira e mexe, saio do Rio e vou para lá ficar na casa dele, e vice-versa. A gente também tem amizade com o pessoal de Barão de Monte Alto, em Minas Gerais.”
Valdevino fundou o Tropa Estradeira em 2017 junto com alguns integrantes do MC do qual era membro anteriormente, descontentes “porque o clube não tinha dinâmica, era muito parado”. Além de rodarem bastante e visitarem amigos, os membros do Tropa Estradeira já organizaram eventos de grande porte para marcar os três primeiros aniversários do MC. Cada um destes aniversários teve em torno de uma tonelada de churrasco, segundo Valdevino.
Hoje em dia, o MC não está tão ativo, pois o dinheiro está sendo empregado na realização do sonho da sede própria, “uma chácara, que aqui no Rio a gente chama de sítio, com 15 mil metros quadrados, campo de futebol, piscina e uma casa boa”. O Tropa Estradeira está deixando para trás os tempos de aluguel em 100 prestações de mil reais, “que já estão acabando, graças a Deus”.
Valdevino conta que sempre teve interesse no motociclismo organizado: “O que me levou ao motociclismo foi uma vontade desde criança. Eu via os motociclistas pelas estradas, sempre de longe, um pouco distante devido aos trajes e histórias, até que em 2005 um amigo passou de triciclo. Eu fiquei louco por aquilo e fui conversar”.
No dia seguinte, trocou seu Opala montado por um triciclo acabadão – que ele foi ajeitando com o tempo – com o sujeito que fez o triciclo pilotado por seu amigo. Pouco depois, entrou em seu primeiro MC, e passou um ano e meio antes de fundar o Tropa Estradeira.
Entre os amigos que Valdevino fez no meio está Reginaldo Passos (também conhecido como Guegué), o vice-presidente do Lobo Doido MG (que será efetivado como MC no dia 13 de julho – dia internacional do rock), do Guarujá (SP). Reginaldo tem 58 anos, 40 em cima de motocicleta. Ele também se interessou pelo motociclismo ainda garoto, assistindo a corridas de lambreta com a avó desde os sete anos. “Eu ficava encantado de ver aquelas lambretas correndo, o amor começou aí. Ela também fazia bailes e convidava esse pessoal. Eu ia por causa das lambretas.” O primeiro MC do qual foi membro foi o Piratas da Ilha, no qual ele permaneceu de 2003 a 2016.
Reginaldo já viajou muito. “Costumo citar que uma vez eu, a minha esposa e três integrantes do MG (de 12 no total) fizemos em um mês 12 Estados. Saímos aqui do Guarujá e fizemos todo o Nordeste, uma viagem de 8.300 km.” Encontros do Lobo Doido com MCs e MGs de outros Estados – como o Black Skulls de Curitiba e o Tropa Estradeira – são recorrentes. “Eu, pelo menos, viajo quase todos os meses, prestigiando os irmãos em várias cidades. E todos os anos nós fazemos uma viagem grande, de 15 a 20 dias, entre janeiro e fevereiro.”
No fim do dia, tanto Marta quanto Reginaldo e Valdevino não têm dúvida: o principal são os amigos que se faz nessa estrada.
- Leonardo Andrade é estudante de jornalismo na UEL ( Universidade Estadual de Londrina) e estagiário do Portal IDEIA DELAS.
- Agradecimentos:
- Arte/capa: Alecksey WilliansRevisão: Jackson Liasch (fone (43) 99944-4848 – e-mail: jackson.liasch@gmail.com)


Uma aventura maravilhosa, só para quem realmente tem muita, senso esportivo. Chego a invejar tamanha coragem.