
Por Leonardo Andrade
O chapéu é aquele acessório que dá um certo charme a qualquer roupa. E, dependendo do modelo, todo o visual fica superestiloso, dá personalidade e desperta interesse. O PORTAL IDEIA DELAS conversou com alguns profissionais adeptos da peça. Eles contam por que usam, por que gostam e indicam.

Antes peças indispensáveis dos vestuários masculino e feminino no ocidente – da cartola do gentleman na Inglaterra vitoriana ao panamá do mineiro californiano e ao clochê da socialite parisiense nos anos 1920 –, hoje em dia os chapéus são uma visão bem mais rara pelas ruas do mundo. Entre os motivos que se especula como principais fatores para o declínio dos chapéus estão a ascensão dos automóveis – que fizeram as pessoas andarem cada vez menos – e um desejo de se afastar de tudo que lembrava o exército depois da Segunda Guerra Mundial. Em uma pesquisa realizada nos EUA em 1947 pela Hat Research Foundation, 19% dos homens que não usavam chapéus citaram “porque eu tinha de usar chapéu no exército” como o principal motivo para não mais usá-los quando a pesquisa foi feita.
No entanto, uma perda de proeminência na moda e na cultura – inclusive em países como o Brasil, sem toda a tradição bélica dos EUA e do Reino Unido – não foi suficiente para acabar com os chapéus e ainda hoje eles são usados por pessoas de todas as esferas da vida: senhores e senhoras que nunca perderam o hábito, adeptos do estilo sertanejo, moças indie buscando um visual diferenciado, entre outros. Quando Stephen Fry disse que “livros estão tão ameaçados pelo kindle quanto as escadas pelo elevador”, ele acabou descrevendo uma porção de outras situações por tabela. Bonés se tornaram o meio mais comum de proteger a cabeça do sol e carros são uma peça-chave da vida contemporânea, mas isso não matou o mercado de chapéus. Em vez de sumir, ele se adaptou aos novos tempos.
Eles e elas usam

Luciano Kirzsenworcel, 51 anos, terceira geração de sua família a capitanear a chapelaria A Esquina – que existe na capital paulista desde 1935 –, conta que hoje em dia a loja oferece produtos bem diversificados. Além dos chapéus, trabalham com cintos, calçados, mochilas e até bonés especiais com proteção solar. As pessoas estão mais atentas à saúde e isso leva muitos a querer proteger a cabeça, seja com chapéus mais tradicionais ou com bonés. O próprio Luciano leva isso para a vida: “É sempre bom estar com a cabeça protegida para praticar algum esporte, andar a cavalo ou no parque. Mas se for correr é melhor um boné mesmo”.
Luciano tem quatro chapéus, todos adquiridos n’A Esquina: dois panamás e dois de feltro. O apelo do panamá é de longe o que mais persiste nos dias de hoje, usando as entrevistas desta matéria como termômetro. “A vedete dos chapéus aqui na loja é o panamá. Sempre em alta, pode ser verão, pode ser inverno, o pessoal está sempre usando.”
Também é o estilo favorito da empresária de Belo Horizonte Daniella Almeida, 37 anos, dona da chapelaria on-line Maria Chapéu e de seis chapéus (entre panamás e os de praia). “O panamá é um chapéu muito fácil de combinar, não precisa se prender a outros acessórios e roupas, mas gosto de usar com óculos escuros.”
Daniella e Luciano dizem que em geral os chapéus de estilo social são mais vendidos, o que Luciano credita a um declínio do estilo country em São Paulo, já que os cantores de sertanejo universitário não usam tanto chapéu quanto seus antecessores. O que não quer dizer que os famosos não influenciem bastante a clientela, particularmente o pessoal do samba e até alguns cantores de sertanejo universitário que abraçam os chapéus. “O pessoal vê os famosos usando, associa e quer comprar, como, por exemplo, o chapéu usado pelo Henrique (da dupla Henrique e Juliano) que é um dos mais comprados da loja”, diz Daniella. Outros modelos que fazem sucesso na Maria Chapéu são os fedoras “estilo gângster”, que o cinema associou fortemente aos contrabandistas de bebidas nos EUA durante a lei seca.
Uma adepta dos fedoras é a tatuadora aprendiz e estudante de artes visuais londrinense Maria Victoria Giglioti, de 21 anos. Ela tem três, além de um floppy de feltro preto, uma boina e um clochê rosa pastel. Ela começou a usar chapéus para se proteger do sol cinco ou seis anos atrás, e hoje em dia os usa quase todos os dias, sem muita preocupação para combiná-los com o resto do visual. Seu favorito e companheiro mais frequente é o floppy.

Claro, além dos “usuários moderados” e do pessoal que compra um chapéu espelhando-se em algum artista ou para compor um visual específico, há os “loucos do chapéu”. Edson Machado, 65 anos (a idade do rock’n’roll, ele assegura), artista plástico curador e gestor cultural residente em Florianópolis, os coleciona. “Tenho cerca de 40 chapéus diferentes pelas paredes e nas cabeças dos manequins que tenho na decoração de casa. Tiro e ponho os chapéus sempre conforme as estações.” E, sim, ele pretende adquirir mais.
Edson geralmente os compra em viagens, pois não gosta do risco de amassar os que já tem na ida e gosta de voltar para casa com chapéus diferentes e assim ir “criando essa geografia através dos chapéus”. Também é um fã da Casa Edith em Curitiba: “Antiga, é um lugar que me fascina, é o sonho de consumo dos chapeleiros anônimos como eu. Sempre passo lá quando vou a Chapéus para todos com estilo e bom gosto.
“Panamás para dias alegres e ensolarados. Chapéu-coco de feltro escuro para noites chuvosas e invernais.” Também é adepto do chapéu-palheta “das guingettes do norte da França”. Os favoritos de Edson são uma cartola curta preta que usa sempre à noite, comprada na Casa Edith, e dois panamás: um de palhinha bem clara, da Colômbia; o outro um pouco mais escuro, de Havana. Ele explica seu processo costumeiro para vestir-se: “Começo a me vestir, nu ainda, pelo chapéu ou pelos pares de meia. As meias geralmente são coloridas e os chapéus neutros. Aí vou montando o corpinho conforme o modelo de chapéu, esse é o processo mais eficaz. Mas às vezes desconstruo tudo e retorno aonde não comecei”.


Tem também a pessoa que trouxe a expressão “louca do chapéu” a este texto, descrevendo a si mesma. A administradora londrinense Roberta Casagrande, 38 anos, tem sete e está sempre provando outros. Teria mais se não fosse o fato de constantemente renovar a seleção quando os mais antigos apresentam desgaste. Ela usa panamá, floppy, fedora, jeans e palha. Não tem um favorito, pois cada ocasião pede um tipo de chapéu. “Se estou numa viagem e vou caminhar bastante, acho que o panamá acaba combinando com tudo, principalmente se for passeio de verão, com roupas mais leves. Ele é mais fácil de colocar na mala também. E gosto dos floppies de feltro no inverno, porque dá pra usar com casaco, com bota, com pachimina. Além de dar uma aquecidinha na cabeça, fica superelegante. Acho também que, quando você vai a um festival de música, ele dá um estilo bem diferente, um acabamento na roupa”, complementa.
Ela sempre amou chapéus, sempre os via em editoriais de moda, revistas e filmes, mas ficava receosa de usá-los, pois não via muitas mulheres de chapéu em Londrina, à exceção das moças tomando sol no clube que frequenta. “Comecei a usar quando ia pra São Paulo e Rio de Janeiro, onde eu via mais pessoas circulando com o chapéu como acessório. Depois foi ficando normal para mim, e hoje uso sem problemas. Acho que fica lindo e complementa muito os looks.”
Na hora de comprar, Roberta tem preferências claras. “Panamás prefiro comprar em lojas que vendam o modelo equatoriano original, pela qualidade e pelo conforto. Os outros, de feltro, jeans ou outra palhinha eu compro em lojas de departamentos. Os da Zara eu gosto bastante. São itens que não dá pra pagar muito porque sempre queremos mais um, né?
*** Leonardo Andrade é acadêmico do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina e estagiário do Portal Ideia Delas.


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