
Conversamos com alguns colecionadores a fim de entender o que significa manter uma coleção, e por que as pessoas o fazem; o resultado foi uma bela exposição de corações e mentes
Por Cristye Vilas Boas
Entre as diferentes escolas que estudam o colecionismo, não há realmente um consenso sobre quando o homem começou a colecionar objetos ou quais foram suas motivações. Ao que parece, seres humanos são colecionadores por natureza: o ato de colecionar os acompanha desde a pré-história, quando juntavam objetos. Ao longo do tempo, exemplos como Júlio César e sua coleção de artefatos gregos se fazem presentes. É claro que a metodologia não era tão detalhada e organizada quanto hoje, mas a intenção é praticamente a mesma.
Diz-se que há dois tipos de colecionadores: o temático e o sazonal. O primeiro coleciona sempre os mesmos objetos, dentro do mesmo assunto. Já o segundo se interessa por temas que variam de época. Em dezembro, por exemplo, ele pode colecionar objetos relacionados ao tema Natal.
Um mix de coleção

Hanne Torresim de Oliveira, de 80 anos, é quase uma mistura desses dois tipos. Sua casa é como uma grande curadoria de objetos – há sua coleção de xícaras, de pratos decorados, de canecas, de miniaturas, cartões-postais e outras muitas coisinhas que ela chama de “quinquilharias”. “Eu tenho mais de cem xícaras. Uns dois, três mil cartões-postais. E outras pequenas coleções”, conta ela. “Alguns desses objetos vêm das minhas viagens ao exterior, principalmente à Alemanha, onde mora parte da minha família. Mas outros, como os pratos, foram todos presentes de amigos que sabem da minha paixão por essas coisinhas pequenas e colecionáveis.”
Hanne explica que essas coleções espalhadas pela casa são mais despretensiosas – fruto de seu interesse e amor por pequenos objetos que contam histórias, que representam lugares. Sua real coleção, contudo, está muito bem guardada em uma espécie de andar subsolo em sua casa. Em um armário de madeira, muito bem organizados em álbuns e mais álbuns, lá estão: selos. “Comecei minha coleção há mais ou menos 50 anos. E acredito ter selos de mais de 50 países. Alguns, presentes de amigos ou dos meus filhos; outros muitos, realmente foram aquisições minhas”, explica. “Quando eu percebia que um selo era histórico ou importante para a época, eu comprava mais de um dele. Também comprei álbuns completos de outros colecionadores. Foi assim que construí todo esse acervo. Devo ter algo perto de 100 mil selos.”
A vasta coleção de Hanne conta com selos históricos e especiais, de datas como as Olimpíadas, Copas do Mundo, de diferentes mandatos presidenciais e moedas (não só do Brasil, como de outros países também). Além desses, ela possui “almanaques” de datas ou anos específicos, dos anos de 1991 a 1998. São muitas as particularidades de sua coleção. Tanto que, após uma vida inteira, ela está hoje valorizada – e pode render uma boa quantia. Isso, contudo, não parece ser o mais importante para Hanne. Enquanto abríamos álbum atrás de álbum, pude ver o olhar apaixonado de quem folheia parte da própria história.
Souvenirs de memória

Já Edson Machado é um colecionador temático. Morador de Florianópolis, Machado, que diz se identificar como um operário da cultura – uma vez que é artista plástico, curador de exposições e trabalha com jornalismo –, tem cerca de 50 chapéus. Ele insiste em dizer que sua coleção é apenas “informal”, uma paixão, uma fonte de divertimento. “Eu já fiz coleção de cabos de guarda-chuva, quadros, coisas exóticas… Mas sempre no sentido de gostar, apreciar tais coisas. Não do modo organizado, catalogado.”
Machado diz que adquire seus chapéus principalmente em viagens – em especial as ao exterior. “É também uma forma de me aproximar da cultura local dos lugares que visito. Recentemente, trouxe um chapéu muito interessante do folclore da Ilha da Madeira, por exemplo.” Ele explica que cada chapéu que compõe sua coleção tem grande significado, pois está atrelado a um momento, lugar, a uma intenção de amigos – todos muito especiais. É o uso dos objetos como dispositivos de memórias. Uma forma palpável de colecionar momentos.


Outro bom exemplo disso é a coleção de Isabela Rao, de 21 anos. A estudante de Letras tem uma coleção de souvenirs dos vários países que já visitou. “Resolvi fazer essa coleção quando viajei para o exterior pela primeira vez, em 2013, para Nova York”, explica. “Comecei porque achei interessante a ideia de poder trazer para casa algo icônico, que seria como uma parte da cidade para mim. Algo para o qual eu olhasse e me lembrasse de onde estive. Comprei a primeira miniatura, do táxi amarelo da cidade. Desde então, sempre que viajo para um novo país, ou até mesmo revisito algum, trago uma lembrança de onde passei.”
Isabela diz que é mais pela memória do que pelo ato de colecionar em si. Mas que, ainda assim, é gostoso ver a coleção crescendo. Também por isso conta que, quando um amigo ou parente viaja para o exterior, ela pede para que lhe tragam algo do país em que estiveram.
Compasso

Johann Fujimoto, de 23 anos, começou sua coleção de bebidas da mesma forma que Isabela Rao e Edson Machado. Guardava garrafas que “sobravam” de momentos importantes com os amigos, pela preciosidade das memórias. Hoje, contudo, sua coleção transcendeu um pouco esse conceito. “Com o passar do tempo, notei que o significado de muitas daquelas garrafas tinha se apagado… E que eu, de certa forma, não me via mais ali”, diz ele. “Eu estava passando por uma fase de grandes mudanças. Ainda estou. Então pensei: por que não colecionar alguma coisa de que gosto? Algo que acompanhe essa minha transformação, que de certa forma até reflita isso?”
Fujimoto explica que decidiu deixar apenas as garrafas de uísque na prateleira e que logo adicionou mais itens à coleção reformulada. “Foi o momento em que estava me formando na faculdade de Direito. Eu deixava de ser um estudante e estagiário para ingressar no mercado de trabalho, tendo que encarar a realidade”, ele pontua. “Além disso, eu sempre tive um pouco de dó de gastar o meu dinheiro. Naquele momento, entretanto, senti que mais do que a formatura e suas consequências pragmáticas, eu estava em uma passagem. Realmente passando de uma persona a outra. E pensei que poderia começar a gastar um pouco mais comigo mesmo, com algo que aprecio. Escolhi o uísque porque, além da minha preferência pessoal, é uma bebida versátil, ‘abrangente’. Há desde garrafas mais baratas a outras muito mais caras”, ele faz uma pausa, reflexivo. “Nessa minha nova fase, começando meu próprio negócio, imagino que minha coleção poderá refletir o meu progresso, conforme eu posso adicionar a ela itens mais interessantes, e servir de inspiração para isso. Estou muito animado para ver como ela cresce.”
Fujimoto diz que passou a se interessar muito mais pelas particularidades do uísque também. Ao estudar a respeito por meio de livros e vídeos, a inspiração cresce mais e mais. A ideia de iniciar uma nova coleção como um rito de passagem é poderosa, pois exprime a necessidade humana de se reinventar. O conceito, ainda, serve como estratégia para manter a motivação. Uma maneira de continuar em movimento, ao passo em que se conhece melhor as faces de seu novo eu.

Talvez, a verdade seja que as pessoas colecionam pelos mais diferentes motivos, que variam dentro de uma mesma matriz de sentido: a fim de organizar o próprio mundo interior e traduzir o mundo exterior. O estudante de jornalismo Leonardo Andrade, de 22 anos, por exemplo, explicou que mantém sua coleção de cervejas paranaenses porque procura guardar e manter registro das coisas. É o mesmo motivo que o leva a utilizar apps de organização no celular. Um traço de sua personalidade.
Ouve-se muito que uma mesa ou um quarto bagunçado é sinal de mente bagunçada. Faz sentido pensar, então, que ao interagir com a realidade dessa maneira – buscando manter uma ordem cronológica, ou uma organização dos acontecimentos, emoções, fases – estamos assegurando um espaço pessoal que nos seja arrumado e familiar. Até porque precisamos nos sentir seguros e firmes; e depositar nossas motivações, interesses e amores naquilo que nos cerca.
*** Cristye Vilas Boas é estudante de jornalismo na Universidade Estadual de Londrina e estagiária do Portal Ideia Delas.
Fotos: arquivo pessoal e pixabay
Revisão: Jackson Liasch


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