Aplicações de IA já impactam mobilidade, segurança e serviços públicos, mas limitações de integração e continuidade ainda restringem a escala das soluções; especialista Gui Zanoni aponta que o avanço depende mais de gestão do que de tecnologia

Curitiba chega aos 333 anos, que será celebrado em 29 de março, com um histórico de planejamento urbano que passa a incorporar a inteligência artificial como ferramenta operacional, em um movimento que leva a tecnologia do discurso para a prática e impacta diretamente a forma como a cidade responde às demandas urbanas.
O avanço da capital paranaense ocorre em contraste com o cenário nacional, marcado por limitações históricas de produtividade e pela dificuldade de transformar planejamento em execução, uma combinação que restringe a eficiência da gestão pública e mantém o Brasil distante de padrões internacionais de desempenho, conforme apontam dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e análises do FGV IBRE sobre a estagnação da produtividade nos últimos anos.
Nesse contexto, a incorporação de inteligência artificial à gestão urbana passa a ser menos uma agenda de inovação e mais um instrumento de reorganização estrutural da administração pública, ao permitir previsibilidade, leitura de padrões e melhor alocação de recursos, ainda que sua efetividade dependa diretamente da capacidade de integração entre áreas e da continuidade de políticas públicas.
“A diferença entre discutir tecnologia e operá-la na prática revela um dos principais pontos de inflexão no debate sobre modernização do setor público no país, sobretudo em um ambiente em que a baixa capacidade de implementação limita o impacto de políticas digitais. É nesse cenário que a experiência de Curitiba passa a ser interpretada como evidência concreta de aplicação”, explica Gui Zanoni, especialista em futuro do trabalho, inovação e inteligência artificial, com certificação internacional em futurismo pelo IFTF.org (2025).
Ainda segundo o especialista, o diferencial não está no acesso à tecnologia, mas na capacidade de integrá-la à rotina administrativa de forma contínua, superando a lógica de projetos isolados e avançando para um modelo de gestão orientado por dados, no qual a tomada de decisão passa a se apoiar em evidências e não apenas em diagnósticos pontuais.
“O impacto da inteligência artificial na gestão pública está diretamente ligado à capacidade de reduzir custo e aumentar eficiência, porque ao organizar dados e antecipar demandas o poder público passa a operar com mais precisão e menos desperdício”, diz.
Na prática, a capital disponibiliza mais de 140 serviços digitais, que incluem desde o agendamento de consultas médicas pelo aplicativo Saúde Já até solicitações de manutenção urbana, coleta de resíduos e atendimento social, formando uma base estruturada de dados que permite a aplicação de inteligência artificial para análise de demandas, identificação de padrões e organização da resposta pública.
Na mobilidade urbana, o uso de dados orienta ajustes operacionais com base no fluxo de passageiros e veículos, enquanto sistemas de monitoramento contribuem para a gestão do trânsito; já na segurança pública, a integração de informações amplia a capacidade de prevenção e resposta, com apoio de análises preditivas que reorganizam a atuação do poder público de forma mais precisa.
Apesar dos avanços na digitalização e na integração de serviços, a experiência urbana ainda apresenta pontos de fricção, sobretudo em demandas que exigem coordenação entre diferentes áreas da administração, como saúde, infraestrutura e atendimento social, onde a informação já está disponível, mas a execução ainda ocorre de forma fragmentada, o que evidencia limites na transformação dos dados em ação.
Esse conjunto de fatores evidencia gargalos estruturais de execução na gestão pública brasileira, que limitam a capacidade de transformar tecnologia em eficiência operacional. “O desafio não está na geração de dados, mas na capacidade de transformá-los em ação coordenada, porque sem integração entre áreas a inteligência artificial opera sobre uma estrutura que ainda é fragmentada”, explica Gui Zanoni.
O modelo desenvolvido em Curitiba também se sustenta em um ecossistema estruturado de inovação, com destaque para o Vale do Pinhão, que conecta poder público, universidades e empresas na criação de soluções aplicadas à cidade, tendo o Pinhão Hub, inaugurado em 2024, como ponto de articulação entre esses agentes e como espaço de convergência entre tecnologia e gestão urbana.
A instituição do Dia das Cidades Inteligentes, por lei municipal em 2025, celebrado em 12 de março, reforça essa estratégia ao integrar o tema à agenda pública da cidade e associar inovação, sustentabilidade e planejamento urbano em uma mesma lógica de desenvolvimento, conectada ao aniversário do próprio Pinhão Hub.
O reconhecimento internacional desse modelo ocorreu em 2023, quando Curitiba foi eleita a cidade mais inteligente do mundo no World Smart City Awards, na Espanha, resultado da integração entre planejamento urbano, sustentabilidade e tecnologia.
“A existência de um ecossistema como o Vale do Pinhão é um diferencial, mas não garante resultado por si só, porque a conexão entre governo, empresas e universidades precisa se traduzir em execução contínua, caso contrário a inovação permanece concentrada em projetos e não se consolida na operação da cidade”, reforça o especialista em Inovação e IA.
Para Zanoni, o principal efeito da inteligência artificial na administração pública está na capacidade de antecipar demandas e reorganizar a operação antes que os problemas se ampliem, mas esse avanço ainda esbarra em limitações como a fragmentação entre áreas, a ausência de bases de dados integradas e a descontinuidade administrativa, fatores que impactam diretamente a capacidade de execução no setor público.
“A gestão pública no Brasil ainda opera reagindo a problemas já instalados, o que gera sobrecarga, aumenta custo e reduz a eficiência; a inteligência artificial permite antecipar demandas, mas sem integração entre áreas e continuidade na execução, essa capacidade fica limitada”, afirma.
Mesmo com o avanço na aplicação de inteligência artificial, a expansão dessas soluções em Curitiba ainda depende de padronização de dados e integração entre diferentes áreas da administração, o que limita a velocidade com que iniciativas bem-sucedidas conseguem ser replicadas em toda a estrutura pública.
“O desafio deixa de ser testar soluções e passa a ser escalar, porque muitas iniciativas funcionam de forma localizada, mas encontram dificuldade para se expandir de forma consistente dentro da própria estrutura pública”, diz.
Para a população, a incorporação de inteligência artificial na gestão urbana se traduz em mudanças concretas na relação com os serviços públicos, com redução do tempo de resposta, maior previsibilidade no atendimento e menor necessidade de deslocamento para resolver demandas cotidianas, ao mesmo tempo em que amplia a capacidade do poder público de organizar fluxos e priorizar atendimentos com base em dados.
“O impacto mais relevante da inteligência artificial não está na tecnologia em si, mas na forma como o cidadão percebe o serviço público, porque quando o atendimento passa a ser mais rápido, previsível e resolutivo, a relação com o Estado deixa de ser baseada em espera e passa a ser baseada em confiança”, afirma Gui Zanoni.
A replicação do modelo observado em Curitiba em outras cidades brasileiras ainda depende de fatores estruturais, como a consolidação de bases de dados integradas, a qualificação técnica de equipes e a capacidade de coordenação entre diferentes áreas da administração pública, elementos que influenciam diretamente a escala e a continuidade de iniciativas baseadas em tecnologia.
“O avanço da inteligência artificial não depende apenas de tecnologia, mas da maturidade da gestão pública, porque é essa base que determina se a inovação se transforma em eficiência ou se permanece restrita a iniciativas isoladas”, conclui Gui Zanoni.
Texto e imagem: divulgação


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