
Por Rogério Cavalcante
Ironia, provocação e deboche são apenas algumas das facetas entre as diversas que a banda “Abacate Contemporâneo” assume em seu álbum de estreia. As apresentações ao vivo têm revirado o cenário “pé-vermelho”. Com irreverência e identidade, o “pessoal do Abacate” lançou recentemente seu primeiro EP homônimo, com seis faixas autorais. Na formação: Marcos Kirchheim (contrabaixo), Eber Prado (guitarra), Rafael Fuca (guitarra), Fabio Farinha (bateria) e Raquel Palma (vocal).
Logo nas primeiras faixas percebemos algumas referências de um dos expoentes da Vanguarda Paulista: Itamar Assumpção. Um dos grandes trunfos fica a cargo das letras compostas, em sua maioria, por Rafael Fuca, que falam sobre o existencialismo cotidiano, de uma forma densa e sarcástica. “Abacate Contemporâneo” é, sem dúvida, um dos mais belos e autênticos trabalhos autorais da cena independente produzidos em 2017.
Embora o álbum nos remeta a uma deliciosa e psicodélica apresentação ao vivo, a banda poderia ter arriscado um pouco mais na escolha dos timbres, levando para os instrumentos o mesmo groove e a mesma ousadia da sua performance no palco. Talvez as guitarras pudessem ter ganhado uma pitada a mais de “sujeira”, um pouco mais de loucura. Nesta mesma linha, segue a mixagem (processo de edição dos sons), carente de ousadia. O fato não interfere na vibe do disco, muito pelo contrário: “Abacate Contemporâneo” nos leva a uma viagem moderna e bem suingada.
A banda surgiu nas noites londrinenses sob a luz dos irmãos Rafael e da cantora e atriz Raquel Palma. Fuca sempre teve uma pegada própria que, somada à genialidade e à performance da irmã, resultou neste trabalho que já nasce marginal, assim como foram Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Jards Macalé e Tom Zé. Um “Caetanear” também é deliciosamente sentido no corpo das canções. As guitarras de Rafael Fuca contribuem muito para linhas melódicas mais definidas. E, por falar nelas, as guitarras, destaque para a participação de Emilio Mizão na faixa “Amarelou”, em que a execução certeira vai ao encontro dos ouvidos mais atentos.

O canto da força feminina e transgressora da vocalista Raquel Palma é, sem sombra de dúvida, ponto alto deste trabalho. Cantora e atriz, ela exala (tanto no disco quanto ao vivo) um vigor numa performance deslumbrante, energizante e chocante. O público não tem escolha: é atingido em cheio por esse Abacate Contemporâneo.
Neste sentido, vale destacar a faixa “Ritalina”, uma composição cheia de humor e ironia de Rafael Fuca e Fernanda Lina. Nela, a cantora mostra a que veio e dá um verdadeiro show de interpretação. As guitarras poderiam ter tomado menos “Rita”, já que ficaram bastante domadas nesta faixa, o que não tira, de forma alguma, o título de uma das favoritas do disco. Digna de nota também é a percussão de Marcelo Siqueira nas faixas “Louca de Pedra”, “Arca de Não é” e “Ritalina”. O cantor e compositor Bruno Morais dá mais brilho ainda à faixa “Mais pra Abacate” fazendo uma participação especialíssima nos backing vocals.
A coluna deixa como dica a faixa “Insônia”, de Rafael Fuca. Que música! Ela tem peso em suas notas, nos timbres, na voz e na interpretação. Canção que fecha o EP mas já deixa aquele gostinho de quero mais. Um disco para ouvir, mas também um show para ser visto. É pra se jogar. A banda disponibilizou gratuitamente o EP na internet. Ouça lá: https://soundcloud.com/abacatecontemporaneo.


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