Por Antônio Mariano Jr

Irene, que canta e que ri, quando abre a casa, a dela,
rima o que lhe é possível: coração e emoção; há tempos, não.
(…)
A casa da Irene é um lugar onde os desejos e afeições vêm e vão;
vão e vêm, entram e saem e deixam visgos e assoalhos gastos. Faz parte.
(…)
A casa de Irene localiza-se no Bairro das Possibilidades;
cujas vias são pavimentadas com as mais
discretas pedrinhas de brilhante; essas ruas não são dela;
somente a janela da casa é dela, a rima é singela; de lá se avista o
luar do Sertão. Emoldurado.
(…)
Dia certo, numa noite inexata, pensou em fechar a janela, para sempre.
Arrancaria as onomatopeias da cortina há tempos instalada no trilho já torto.
De maneira assim, resumidamente:
Vapt! Pá!!
(…)
De forma tal, faria assim:
Com mãos iradas ela puxaria a cortina amarela; cobriria a cabeça com
o então esvoaçante véu amarelo; gritaria deeeeeeuuuuuussss, sem muita
convicção.
Deixaria a janela rindo aos luares inevitáveis.
E desceria a escada pisando com vontade nos pontos mais rangentes dos degraus,
para ser unicamente Irene, a dona daquela
casa onde se canta e se ri. Ainda.
(…)
Tsc tsc tsc tsc tsc…
Não arrancou a cortina. Deixou a janela com o sorriso amarelo.
Tirou Irene o coração do copo d’água; deixou apenas o desejo imerso no recipiente sobre o criado-mudo.
Numa noite inexata, descuido da natureza aflita, chacoalhou o coração aguado e o recolocou no lugar devido; pela boca engolido, como de costume.
Tomou um gole da água do copo onde guardava também suas rimas, suas soluções e suas fendas.
Foi abrir a casa na noite qualquer; e cantou e riu. Entornou copos e ânsias alheias, misturou desejos.
(…)
De uma queda foi ao chão.
Quase todos a acudiram; assustou-se com um terceiro que lhe deu a mão.
E lhe tirou o chão.
Grogue e vesga, baixa visão.
(…)
O terceiro foi aquele que a Irene deu a mão;
E que ferveu as calhas da casa interna onde Irene guardava seus finos tratos.
E também as suas cantigas de roda e pragas nunca rogadas;
e coisas ainda tão suas e íntimas e tão pouco provadas que
de uma queda foi ao chão, não a Tereza, a Irene.
(…)
O terceiro.
A mão mais precisa do mundo, a firmeza dos propósitos nas pontas dos dedos.
Acenou o terceiro com todos os dentes e carnes e pelos e uma arte no calcanhar;
Irene estendeu a mão e possíveis rimas.
(…)
Daqui para cima, dizem, ficou febril;
Daqui para baixo, contam, fez-se feliz.
(…)
Fixou moradia no centro exato do desejo;
habita entre os iguais também.
Que, daqui para baixo, gotejam.
Que, daqui para cima, constituem o fogo sagrado.
(…)
O terceiro fez convite para subir ao céu;
Para sorver ângulos; lamber o dedo em riste,
o riste;
Alcançar o teto. Tocar, quem sabe, o dedo de Deus.
Ou tocar pomos.
(…)
Feliz e metafórica, Irene espalhou-se em adjetivos
e sensações; desfez-se da cidadania italiana.
Dizem: nem tinha ela a cortina amarela;
a janela, sim.
(…)
O primeiro.
O segundo.
O terceiro.
Noves fora, gente adentro;
quem avista a janela joga uma trova;
(…)
A janela ri ansiosa, aberta e desejosa;
rima toda prosa e facilmente.
Pode ser rosa ou Irene,
Aquela que ri, minha gente.
(…)
A vontade é feminina;
Não o gênero, a coisa.



Maravilhosa crônica, Antonio Mariano Júnior.