
Por Antônio Mariano Júnior
Encantou-se por Aquele.
(…)
Ela não se conformava.
Conversava com as paredes, atirava-lhes copos e pratos e pragas.
As paredes tinham ouvidos, mas não continham soluções.
(…)
O Baile do Hawai.
A estampa floral do vestido também camisa fez-se para Ele.
Três outros casais estampados.
Mesas decoradas com abacaxi, laranjas, maçãs, uvas
e melancias esculpidas.
Seis seres com colares havaianos.
Flores de plástico, aquilo.
(…)
Aquele Um, na ponta da mesa.
Ofereceu-lhe um cavuco de abacaxi com vodca.
“Isso não sobe, trepa. Cuidado, hein”, alguém brincou e gargalhou
(…)
Ela riu por falta de opção. Pegou no ar o copo com uísque
e gelo de água de coco oferecido por Aquele engraçadinho,
“amigado” com Su, conhecida de outros, digamos, carnavais.
(…)
Ela e Aquele prosseguiram dias e noite outras.
Devoram-se noites e dias.
Tudo muito rápido.
(…)
Ela sentia frieza por parte dAquele depois de devorada.
Ela gelava sozinha, por dentro;
as paredes ofendidas não lhe davam mais ouvidos.
(…)

Ela pensou em fugir com o circo, certa vez.
Admirava a frieza daquela que rodava
na redonda tábua e circundada era
por desaforos e facas do atirador.
Encantava-se com a ousadia do motociclista,
que girava no Globo da Morte.
(…)
Ele começou a pintar os cabelos.
Ela o pegou, várias vezes, assobiando sem mais nem por quê.
(…)
Ele deu para visitar regularmente um amigo melhor,
ex mágico e guardador de segredos.
(…)
Ela e Ele, certa noite, encresparam-se.
Ele tacou na cara quantos quilômetros
percorreu no Globo da Morte para chegar
ao coração dEla.
Ela, cinicamente, respondeu que sentia
apenas vertigens com o escapamento da motocicleta dEle.
(…)
Numa macarronada beneficente,
juntaram-se aos mais próximos
Aquele entornou doses generosas de uísque.
Su e o mágico engoliram baldes de batida de abacaxi e vodca
e leite condensado.
(…)
Ela tomou água.
(…)
Aquele falou, lá pelas tantas,
a quem quisesse ouvir, que era aberto
a outras experiências tipo assim, bicho, mora?!
Ele, imediatamente, colocou a mão no joelho dAquele
e pediu um gole do uísque.
O mágico levantou-se e sumiu;
voaram pombas e pragas e lágrimas, na saída.

(…)
Ela retocou o batom.
Anunciou, como se diante de um respeitável público,
que seu nome seria Maria, daquela noite em diante.
(…)
A loira monocromática riu
como pomba mamada, girada.
Maria soletrou vagarosamente o nome de Su, a conhecida.
Nome: Esse, u, dois eles, ípsilon, e, ene.
Sobrenome: vê, a, cê, a.
(…)
Foi um show.
(…)
Dias depois, Maria, vejam só,
cruzou com Aquele Um, numa rua
pouco andada, que deveria
ter sido e não foi.
(…)
Estendeu-lhe a mão direita.
– Muito bem, obrigada, e você?!
– Bem melhor, agora.
(…)
Lembra?
Aquele Um, do canto da mesa,
do cavuco de abacaxi e vodca.
É do Baile do Hawai.
Então…
(…)
Aquele Um poderia
chamar-se José. No entanto, era humano
demais para ser Miguel, Gabriel ou Rafael.
Ou mesmo Ricardo, Rodrigo, Roberto, Raimundo,
rimas fáceis ou ricas.
(…)
Era nome e sobrenome do peso da dor,
do peso de cruz.
– Maria, olha o que o amor me fez!
Mostrou o coração e os pêlos.
(…)
O pomo de Adão saliente.
Úmida Eva.
(…)
Ampliaram carnes e músculos;
prolongaram-se.
Havia urgência, havia amor.
(…)
Havia convenções também.
Não causariam dor aos seus;
seriam condescendentes com os seus.
(…)
Ele e Aquele e o ex mágico faziam a diferença.
Suellyen, a Su, teve as palmas das mãos
atravessadas por facas do atirador.
Converteu-se em recatos.
(…)
Aquele Um mora e cuida da mãe dada como louca,
desde que a ex nora abriu os braços para a trapezista;
juntas foram respirar outros ares.
Deixou a sogra definitivamente viúva.
(…)
Maria viveria feliz para sempre com
aquele semideus de machos pêlos
e masculinas sensibilidades.
(…)
Os demais que aprendam a
reescrever os próprios destinos;
nas traçadas linhas do amor
ou da dor.



Parabéns. …adorei
Que bom, Raquel, você ter gostado!!! Fico numa felicidade quando recebo retorno do que publico; são “coisas”minhas, palavras e textos que ofereço de coração. E de coração agradeço a você. Um beijo, flor.
LIndo!
Obrigado, Marcelo, muito obrigado!!!!!
👏👏👏👏👏👏👏👏
Texto maravilhoso, como todos os textos do Mariano! !
Muito obrigado, Janayna. É estimulante receber palavras carinhosas como as suas.
Um próximo texto fechará a trilogia.
Um beijo, flor