
Por Antônio Mariano Júnior
Juro, aconteceu!!
Dias atrás, aliás.
Num banheiro.
(…)
Entrei e ouvi uma voz masculinamente forte, pastosa, sofrida.
O cantante com a mão direita apoiada no alto da parede azulejada;
a outra mão dedicada ao uso daquela calha em inox.
Aqueles mictórios, os populares “mijadores” em forma de cocho instalados
em banheiros masculinos.
Claro, recheado com incontáveis bolas de naftalina e rodelas de limão.
Não me pergunte o porquê…
(…)
Entrei na casinha. Fui fazer o número 1.
Não quis incomodar o cantante, que soltou a voz:
“Deixe / Esta mulher cheia de anéis/ Junto com seus coronéis/ Em delírio a beber/ Deixe…/ Que ela erga sua taça/ Em saúde da desgraça/ Que arruinou o meu viver”.
(…)
Anotei um trecho daquela música no bloco de notas do celular.
Para caçar no Google.
(…)
Chama-se “Punhal da Falsidade”. Imaginei ser do Nelson;
pertence ao repertório de Tião Carreiro e Pardinho.
Um tango.
(…)
Volto à área comum de onde estávamos e o cantante três mesas atrás,
óculos escuros, boné, entornando copos, chorando disfarçadamente.
Sozinho.
(…)
Chorava por um grande amor desfeito, certamente.
(…)
Uma amiga me contou. Guardei para sempre.
Duas mulheres andando numa calçada.
Uma delas chorando e falando alto:
– Como esquecer ele se o cheiro dele está na minha cama,
nas minhas fronhas, na minha vida?
(…)
Chorava por um grande amor desfeito, certamente.
(…)
De repente, o grande amor, o sagrado e imenso amor,
adensa o ar, provoca uma sucessão de friúmes em quem tanto o idolatra,
quando diz, aspas:
não te amo mais, tudo de bom, passe bem,
foi bom enquanto durou, guarde nossos melhores momentos, fique com as nossas melhores lembranças, você é um ser humano maravilhoso, vamos manter a amizade, a gente se vê.
(…)
Estocadas finais, aspas:
não chore por favor, não me deixe pior do que estou, melhor você
saber por mim do que por outros, aconteceu, a gente não comanda o coração, guarde essa faca, a vida continua.
A derradeira cravada no coração, aspas: seja feliz.
(…)
O término unilateral de um grande amor expõe as vísceras.
Macera o juízo; torna volátil a autoestima dos machos e fêmeas e os assim.
Não tem onde caiba a dor dos que permanecem amando enquanto
o outro barco rasga as águas.
(…)
Deus pelo avesso.
O copo, o trago, o chão sem chão, a dor em estado infinito.
Tudo se fuma, tudo se bebe, tudo se cheira, todos os sentidos atônitos.
Amor que cega grandemente; amor feito para durar e não durou;
amor que emagrece, amor que vira doença.
(…)
Um domingo, anos atrás. Quase noite.
Num banco em frente ao Teatro Ouro Verde.
Sentado, vômito ao lado do sapato.
O homem engazopado, litro vazio no chão.
(…)
Olhava para o Teatro, cantava alto.
Quando esquecia pedaços da letra, assoviava.
Frisava o final, recomeçava:
“E agora em homenagem ao meu fim/ Não falem desta mulher perto de mim/
Não falem desta mulher perto de mim/ Não falem pra não lembrar minha dor/
Já fui moço, já gozei a mocidade/ Se me lembro dela me dá saudade”
(…)
Já chorei alto em casa,
aumentei o volume do som para abafar os gritos e as pragas;
Chorei alto debaixo do chuveiro, algumas vezes.
(…)
Quem nunca cantou ou gritou ou cantou a perda de um grande amor?
Só eu chorei em público? Só eu senti as dores de um mundo caído?
(…)
Sou intenso. Na alegria e na tristeza.
No entanto, admiro os mais intensos, que vão para a vida e cantam
suas dores oitavas acima. Que choram vida afora para a humanidade
calar-se diante daquela dor do amor maior que se foi.
(…)
A voz dos que cantam para dentro.
A voz dos que cantam com a voz do disco.
A voz dos que falam assim, aspas:
nossa, como amei, como sofri, credo;
nunca mais cantei aquela música;
essa música me incomoda;
eu dormi na praça pensando naquilo;
não guardo mágoa daquele (a) filho(a) da puta;
ainda canto aquele amor por dentro.
(…)
Um amigo, destroçado por dentro, macho por fora,
num show que rimava amor e dor.
Aquela música. Cantou junto, chorou muito
e, no final da apresentação, bateu palmas com vontade
e soltou com força e com vontade:
– Puta que pariu, que lindo!!!!
(…)
Buarque, Chico, sobre a possível regeneração de um coração atormentado:
“Quando você me quiser rever/ Já vai me encontrar refeita, pode crer/ Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você eu passo bem demais/ E que venho até remoçando, me pego cantando/ Sem mas nem porque”
(…)
De outro Chico, da Paraíba:
“Eu sei como pisar/ No coração de uma mulher/ Já fui mulher eu sei/Já fui mulher eu sei”.
(…)
Porque jamais esquecerei a voz daquela mulher,
tão arrebentada pelas escolhas do coração.
Aquela mulher faxinando a minha casa cantou, certo dia:
“Nunca se esqueça nem um segundo que eu tenho amor maior do mundo”.
(…)
– Tá romântica, hein?
– Que nada, mandei aquele filhadaputa embora da minha vida!
(…)
Quantas vezes deixei de sangrar publicamente…


Como sempre….que texto mais lindo.
Muito obrigado, Claudia! Muito obrigado mesmo!!! Um beijo, flor.
Ah! o amor…Quando é demais ao findar leva a paz…Muito bem colocado o texto…estilo limpo, agradável…e verdadeiro…
Que bom você ter gostado, Geo!
Bela citação de “Preciso aprender a ser só”.
Muito obrigado, viu?
Um abraço carinhoso, um beijo.
E eu que até me meyi a poeta…tenho versos que o venero e outros que o desprezo. Obrigada pelo texto. Me sinto perdoada.
Poeta Edra, assim: suas palavras são admiráveis. Afiada na vida e na verve, você! No entanto, a delicadeza também. O que escrevo nem nome tem. Mas há verdades, muitas verdades. Confio também nas suas. Um beijo, amada.