

Por Antônio Mariano Júnior
Não nos víamos há duas ou três encarnações.
Perguntou:
– Você tá com quantos anos, agora?
– Cinquenta e três!!!!!!!!
(…)
Como quem canta “Brasileirinho”,
embora goste mais de “Apanhei-te cavaquinho”,
resumi minha trajetória em dois minutos.
Chovi pela boca; saltitantes gotículas salivares.
(…)
– E você? Tá com quantos anos, agora?
Chovida e despreparada para a pergunta
a conhecida enrolou, abraçou, beijou
e vazou.
(…)
Para mim, não revelar a idade
é tão assim, sabe, quanto fingir o peso.
Cinquenta e três anos; 37 quilos,
engordei um pouquinho…
(…)
No dia 8 de dezembro de 2017,
completarei 53 anos. Entra dezembro
e, como uma afetada baliza de fanfarra,
saio anunciado meu aniversário aos quatro
ventos.
(…)
Faço questão de presentes, não!
Nem da famosa é-uma-lembrancinha-não-repara.
Gosto de palavras, abraços, beijos, quenturas,
Telefonemas. Gosto de me emocionar.
(…)
Nasci em Matão, em 1964.
Antônio, meu pai, levou Eurídice,
minha mãe, para ficar aos cuidados
da vó Alcita e do vô Tatá.
(…)
Foram de trem. Gravidez complicada.
Pai voltou de trem para Santa Mercedes,
para assumir a vaga de professor.
(…)
Meus pais achavam que seria uma menina;
a outra parte do mundo apostava no
nascimento de um menino.
De repente, eu!
(…)
Osmar, César, Paulo, Paulo César,
até José Maria, reza a lenda, foi cogitado.
Minha mãe queria homenagear Maria,
especificamente Aparecida, a quem pediu
proteção e vida; para ela e para mim.
(…)
Em Santa Mercedes, o professor Antônio Mariano
recebeu o seguinte telegrama:
“Ontem quase quatro nasceu menino oito quilos”.
Deram água com açúcar para o coitado.
Abalado pelos números, pegou os trilhos
Para ver aquele “fenômeno”; eu!
(…)
No primeiro aniversário.
Vó Alcita deslizou naqueles trilhos
tão familiares e foi saudar o neto-afilhado.
Pai Antônio foi buscá-la, na estação ferroviária de Dracena.
Foi de expresso Adamantina.
(…)
Quando a vó Alcita abriu a mala imensa
e quadrada, de eucatex, para pegar o
vestido novo feito para a minha festinha,
a terra tremeu do lado esquerdo:
havia uma sanfona!!!!
Isso mesmo, uma sanfona dentro da mala!
(…)
Já o sanfonista fez a terra tremer
do lado direito ao pegar os instrumentos
íntimos da vó. Dias depois, as malas
foram destrocadas.
(…)
O que pai e mãe, debilitada,
sob extremos cuidados médicos,
conversaram quando se viram,
ninguém ouviu.
(…)
Ao contrário do telegrama, até hoje guardado,
nasci no dia 8 com quase quatro quilos.
Menino.
(…)
Mãe falou que o pai fez carinho na cabeça dela.
Pai falou que chorou quando ouviu a mãe
dizer o meu nome:
Antônio Mariano de Souza Júnior.
(…)
Meu sobrenome reverencia Maria Santíssima.
(…)
Um dia, Antônio Mariano, pai, contou
com detalhes e lágrimas, quando
pegou o seu Júnior, nos braços,
pela primeira vez.
(…)
Desobedeceu as ordens da enfermeira,
e me levou diante de uma grande imagem
de Nossa Senhora, no final do corredor
do hospital. Ele me consagrou à Virgem Maria.
A enfermeira, contou meu vô Tatá, fez o sinal
da cruz. Falou Amém e se emocionou.
(…)
Antônio Mariano, o professor Mariano, como
gostava de ser chamado, pegou uma folhinha
do sagrado coração de Jesus. Acrescentou
aos santos do dia: “Dia do Júnior”.
(…)
Por essas e outras alardeio o dia dos meus anos.
Faço festas dentro de mim;
celebro-me.
(…)
Há três anos, quase morri. Até me despedi
de algumas pessoas. Por telefone.
Juro por Deus, eu sentia vida e não a morte.
O que se passou comigo naquela UTI,
Aquele clarão azul-branco-violeta, aquelas vozes,
aqueles vultos; aquilo tudo não direi a ninguém.
Aquilo tudo continha a certeza de Deus.
(…)
Olha eu, Vivinho da Silva, graças a Deus!
Enquanto estou vivo, cheio de graça
talvez ainda faça um monte de gente feliz.
(…)
Fui criado em Tupi Paulista.
Minha história escorre lá.
Londrina me ensinou a vida;
aqui retornarei ao pó.
(…)
Sinto fisgadas quando
ouço Mario Zan tocando “Saudades de Matão”.
Na sanfona.
(…)
Vó Alcita do céu, qual era a cor da sanfona?
(…)
Qual o tom, meu Antônio?
Soprano Eurídice, qual é a música?
(…)
Eu me desejo amor.
Parabéns eu!



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