

A londrinense Carol Garcia Cid, uma viajante apaixonada e determinada a conhecer o mundo, sempre que possível une os destinos à sua outra grande paixão: a bicicleta. Ela não se intimida com a distância, as condições, o espaço, o clima ou a culinária. Pelo contrário, Carol se adapta a tudo e transforma cada viagem em uma verdadeira aventura.
Colaboradora do Portal, especialmente da coluna Passaporte, ela registrou momentos incríveis de mais uma jornada e compartilha a valiosa experiência de pedalar por Alter do Chão. Vamos acompanhá-la nessa aventura!
Por Elisiê Peixoto



“Foram mais de 100 quilômetros de bicicleta e trekking por Alter do Chão, uma vila encantadora localizada no oeste do Pará e conhecida como o “Caribe Amazônico” por suas praias de água doce, areias brancas, águas transparentes e pores do sol de tirar o fôlego. Ali, a riqueza cultural e a exuberância da floresta transformam cada caminho em uma descoberta, às margens de um Rio Tapajós tão largo que parece mar. Literalmente!
Do aeroporto de Santarém, seguimos em um transfer de aproximadamente 40 minutos até Alter do Chão. E então começaram os passeios, os banhos em igarapés, as pedaladas debaixo do sol amazônico e uma verdadeira imersão na riquíssima culinária paraense.
Eu, que nunca fui fã de peixes de água doce, apaixonei-me pelo pirarucu, pelo filhote e pelo tambaqui. Também conheci ingredientes e pratos com nomes que, para nós, pareciam exóticos: jambu, tucupi, tacacá, maniçoba, aviú, piracuí, feijão-manteiguinha de Santarém e mel de abelhas melíponas do Arapiuns. Em muitos momentos, precisávamos recorrer ao ChatGPT para “traduzir” o cardápio! (risos)
Descobri, por exemplo, que o jambu provoca uma leve dormência na boca e que o tucupi e a maniçoba são preparados a partir da mandioca-brava, que pode ser tóxica se não for processada corretamente.
Já no primeiro dia, aventurei-me no Filhote no Arubé: peixe com crosta de castanha-do-pará e mel de jandaíra, servido com molho de tucupi. Estava divino!
Ao sairmos do restaurante, tivemos a sorte de acompanhar a gravação de uma apresentação que antecedia o Sairé, a tradicional festa de Alter do Chão. De origem secular, o Sairé reúne elementos da cultura indígena, da religiosidade católica, da música, da dança e da encantaria amazônica.
Um dos pontos altos é o Festival dos Botos, marcado pela disputa entre duas agremiações: o Boto Cor-de-Rosa e o Boto Tucuxi, que representa o boto-cinza. É como uma versão menor da famosa festa de Parintins, mas com a mesma riqueza de detalhes nas fantasias, nas alegorias, nas músicas e na rivalidade apaixonada entre as torcidas.
Minha irmã Carla sempre foi a essas festas e eu nunca havia entendido completamente o porquê. Depois de assistir àquela apresentação tão de perto, finalmente a entendi! Fiquei boquiaberta com as fantasias, as danças, as letras das músicas e toda a cultura representada ali. É muito bonito, cativante e emocionante!
Pedalando por Belterra
Nosso primeiro passeio de bicicleta foi por Belterra, cidade criada na década de 1930 como parte do ambicioso projeto de Henry Ford para produzir borracha na Amazônia.
Ao longo dos passeios, passamos por vários igarapés para nos refrescar do calor que chegava perto dos 40 graus. A palavra “igarapé” tem origem tupi e significa “caminho de canoa”. São pequenos cursos d’água amazônicos, geralmente estreitos e pouco profundos, que avançam pelo interior da mata.
Além de lindos, aqueles banhos eram renovadores e nos davam energia para continuar pedalando!
Dentro da Floresta Amazônica
A experiência que mais me marcou foi o trekking no meio da Floresta Nacional do Tapajós, conhecida como FLONA. Ali, a Amazônia revela toda a sua força e grandiosidade.
Foi onde conhecemos a imponente samaúma, chamada por muitos de “mãe das árvores” ou “rainha da floresta”. Ela pode alcançar cerca de 70 metros de altura e é considerada sagrada por diferentes povos amazônicos, simbolizando força, proteção e a conexão entre a terra e o céu.
Durante a caminhada, aprendemos como é feita a extração do látex da seringueira e como as comunidades constroem casas e coberturas utilizando palha. Conhecemos formigas que, quando tocadas, liberam um cheiro usado tradicionalmente como repelente, além do breu-branco, uma resina aromática da floresta que endurece como uma pequena pedra. Quando queimada, ela libera uma fumaça perfumada utilizada pelas comunidades para defumação e em práticas tradicionais de bem-estar.
Tudo era explicado pelos nossos guias indígenas e moradores da floresta, que compartilhavam conosco conhecimentos transmitidos através de gerações.
É verdade que, depois dos primeiros cinco minutos caminhando mata adentro, já estávamos literalmente pingando de suor por causa do calor e da umidade. Mesmo assim, cada quilômetro percorrido valeu a pena.
É muito emocionante parar por um instante e pensar: “Eu estou dentro da Amazônia!”
E, no meio de toda aquela mata, ainda encontramos um igarapé lindíssimo, com água refrescante, para renovar as energias antes do caminho de volta.
Areião, tombos e um PhD em capotes
Para chegar a Ponta de Pedras, atravessamos com as bicicletas pela famosa Ilha do Amor. Depois, enfrentamos aproximadamente 25 quilômetros de muito areião fofo.
Em vários trechos, empurramos as bicicletas muito mais do que pedalamos! E, quando insistíamos em pedalar, os tombos eram praticamente inevitáveis. Foram tantos capotes no areião que voltei de lá com um verdadeiro PhD no assunto! (risos)
Mas cada esforço era recompensado pelas paisagens, pelas praias de água doce (Caribe e pelos banhos refrescantes ao longo do caminho.
Também fizemos um passeio de canoa havaiana saindo de Alter do Chão até a Ponta do Muretá. Além de ser muito divertido remar em grupo, contemplar o pôr do sol no Tapajós foi um verdadeiro presente para os olhos e para o coração.
Passeio de lancha, macaquinhos e vitórias-régias
Outra experiência muito especial foi o passeio de lancha até uma área repleta de vitórias-régias. As ondas do Rio Tapajós estavam tão altas, e o vento contra era tão forte, que ficamos completamente ensopados! Dessa vez, não de suor, mas de água! (risos)
Antes de chegarmos às vitórias-régias, passamos por uma trilha para alimentar os macaquinhos e conhecer o Seu Mateo, um pescador que já ganhou vários prêmios por pescar pirarucus com mais de 60 quilos!
Em sua casa, saboreamos vários pratos preparados com vitória-régia. Uma delícia! Quem poderia imaginar que seria possível comer tantas iguarias feitas com essa planta? (risos)
Foi mais uma daquelas descobertas surpreendentes da Amazônia: além de admirar a beleza das vitórias-régias, ainda pudemos conhecer diferentes formas de utilizá-las na culinária local.
O encanto do carimbó
À noite, fui conhecer a Quinta do Mestre, encontro tradicional realizado no Centro de Referência do Carimbó Mestre Chico Malta. Ali acontecem apresentações de carimbó e de outras danças típicas da região.
Mais do que uma dança, o carimbó é uma expressão cultural formada pelo encontro das matrizes indígena, africana e ibérica na Amazônia, a partir do século XVII. A influência indígena aparece na dança em roda, nas maracas e no próprio curimbó, o tambor que deu origem ao nome “carimbó”. A presença africana, trazida também pelos povos negros escravizados, pulsa nos tambores, nos cantos, no ritmo e na expressão corporal. Já a herança ibérica aparece em alguns instrumentos e elementos melódicos.
Em muitas comunidades, o carimbó também está ligado às celebrações de São Benedito, santo de grande devoção entre as populações negras da Amazônia. Em 2014, foi reconhecido pelo Iphan como Patrimônio Cultural do Brasil.
O que mais me encantou, porém, foi compreender o simbolismo da dança entre o homem e a mulher. Eles dançam próximos, mas não se tocam. O homem corteja, acompanha os movimentos e tenta conquistar seu par. A mulher responde com o balanço da saia, os giros, a postura e, principalmente, com os olhares.
É como se existisse uma conversa inteira entre os dois, sem que nenhuma palavra seja dita e sem que os corpos precisem se encostar. Ele a corteja e ela o seduz apenas com os movimentos e o olhar. Achei essa delicadeza de uma beleza imensa!
No jantar especial de despedida, ainda tivemos uma aula de carimbó. Vestimos as famosas saias coloridas e rodadas usadas pelas mulheres e tentamos reproduzir os passos e os giros que tanto haviam nos encantado.


Sabores amazônicos
Outro momento muito especial foi o almoço na Casa do Saulo, um dos restaurantes mais reconhecidos do Pará. O chef Saulo Jennings valoriza a cozinha tapajônica e os produtos da região, utilizando peixes amazônicos, castanha-do-pará, tucupi, jambu, aviú, feijão-manteiguinha e muitos outros ingredientes que contam, através da comida, a história e a cultura daquele território.
Mais uma vez, o cardápio era tão repleto de nomes desconhecidos que precisamos recorrer ao ChatGPT para entender tudo! Mas provamos, descobrimos e nos surpreendemos muito.
Alter do Chão foi assim: uma mistura deliciosa de aventura, natureza, cultura, sabores, esforço e emoção.
Eu faria mais 100 quilômetros, mesmo debaixo daquele sol escaldante, com temperaturas por volta dos 34 graus e sensação térmica acima dos 40. Enfrentaria novamente as estradas de areião — talvez empurrando um pouco mais a bicicleta para diminuir os capotes! — só para ficar mais um tempo curtindo as águas do Tapajós, a grandiosidade da floresta, a cultura amazônica e o carinho do povo paraense.
E uma coisa importante: mesmo quem não tem o costume de pedalar pode viver essa experiência. Cada pessoa pode adaptar o percurso ao seu preparo e descobrir Alter do Chão à sua maneira. Porque, no fim, o esforço fica pequeno diante de tudo o que se vive por lá.
Viajem mais! Sempre!
Porque algumas viagens nos apresentam lugares. Outras nos fazem enxergar, sentir e compreender um Brasil que ainda conhecemos tão pouco. Alter do Chão fez tudo isso comigo.
Todas as fotos são do arquivo pessoal de Carol Garcia Cid.











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