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  • História da Nossa Gente Londrina 90 anos

Confesso que vivi. Que vi. Que ouvi dizer. Que ri e também agradeci

26 de junho de 2017 por Claudia Costa Deixe um comentário

Por Antônio Mariano Júnior

 

Pá!

Energia elétrica acabou!

(…)

Em uníssono: “Ahhhhh…”.

Rolou também “taquepariu”. Dois, um meu.

Num setor de caixas eletrônicos, uma caixa de sapatos, espremido.

A moça: “Calma, bem, calma, amor, pelamordedeus”.

O bem, o amor, suado, macho falou grosso:

– Eu vou enfiar o pé nessa bosta, vou quebrar essa bosta, amor, me tira daqui!

– Meu filho, já a luz volta e a porta abre… Fica tranquilo…, disse uma distinta senhora.

Claustrofóbico o bem, o amor da moça.

 

(…)

Aí, a distinta senhora soltou para a rodinha em volta do bem, do amor da moça pálida de tão sem graça:

–   Calma, meu filho… Minha filha também é homofóbica, tem pavor de lugar fechado…Tem que saber se controlar…

A namorada do “homofóbico” falou grosso:

– Calma, amor!!! Não fala nada, amor, ela tá tentando ajudar…

Deu uma falta de ar em mim…

(…)

O grau de parentesco não falo porque tenho amor à vida.

Chegou desacorçoada em casa. Vinha de uma procissão. Sentou-se na poltrona de napa.

Bufava.

Começou assim:

– Eu sei que é uma pessoa simples, que não tem estudo, que tentou me agradar… Sei que não quis me ofender… Não respondi…

Desembuchou, de vez:

– Veio me cumprimentar, falou que eu estava bonita, muito bonita, elegante…Que eu estava tão bonita que parecia uma vaca… Olha que fdp!!!

A terra tremeu do lado esquerdo com tantas gargalhadas.

(…)

Quem não?

Situações constrangedoras, vividas, vistas, ouvidas.

As vergonhas alheias também, essas pulverizadas com força e com vontade.

A gente começa a contar assim, as nossas: “Fiquei passado”.  Ou: “Fiquei bege”. Ou também: “Nem te conto…”

Ou, a melhor de todas, como diz minha amiga conselheira: “Fiquei úmida”

(…)

Ouvi. Pulverizo.

Conhecido político quase nunca se fazia entender. Falava, falava e falava e os pontos de interrogação se proliferavam.

Tá, dava umas talagadas na cangibrina.

Um gole a mais, certa feita, soltou:

– Será que estou falando grego? Estou falando inglês? Estou falando muçulmano?

Ela falava muçulmano.

(…)

Fiquei úmido em muitas oportunidades.

(…)

Na República. Visita para jantar. A casa, um brinco.

O amigo fino me fez ralar noz moscada.

A amiga macerou manjericão-até-chega. Espaguete ao pesto. Impressionava, na década de 1990.

No aparelho de som Gradiente, Billie Holiday.

A amiga do manjericão resolveu enrolar um cigarrinho, para relaxar.

Fumávamos, muito.

A visita chegou.

A gente doidinho, doidinho…

(…)

Aquela conversinha fiada da visita que chega, sabe?!.

Elogiou o aroma da comida, a música, a cortina, a samambaia de metro, a manta do sofá, o peso da porta, de tudo um pouco elogiou…

Vinho. Taças. Vira o disco. Desvira o disco. Lado A, Lado B.

A amiga do manjericão-até-chega, lá pelas tantas, me solta essa:

– Ai, essa tal de Billie Holiday é muita chata, né?

Ô vontade de virar fumaça verde, naquele momento.

(…)

Uma coisa é gafe; outra coisa é não saber como se redefinir nas deslocadas que a vida dá.

Aquelas situações em que, homens e mulheres, rodam o imaginário colar de pérolas do pescoço como se rosário fosse.

(…)

Minha formatura.

Vamos agradecer a Deus. Na Catedral de Londrina. Pai e mãe e os filhos.

De joelhos.

Dedos das mãos entrelaçados.  Sussurros.

Meu pai e minha mãe emocionados. Ajoelhados.

– Toninho do céu… Puta que pariu, olha o tamanho da Cruz no altar… Para de rezar um pouco e olha…

Meu pai enxugou as lágrimas; falou palavrão mais amenos ao palavrão da minha mãe.

Ela fez o sinal da cruz, pediu desculpas. Bateu na boca.

– Vocês não sabem rezar com fé, tascou minha Eurídice.

(…)

Comprou uma camisa de marca. De grife. Cara para caramba.

Num shopping. Deve ter parcelado, se bem conheço.

Foi a um encontro religioso, na cidade em que roupas de grife, antes de se tornarem abusivas no preço, são confeccionadas. Não sabia disso.

Comprou. Crente que iria arrasar. Foi. Chegou.

Os homens estavam vestidos TODOS com camisas da mesma marca. Compradas por baciada na cidade.

– Essa sua é verdadeira. Quanto você pagou?,  sentenciou um irmão esfregando o tecido com os dedos e conferindo o acabamento.

(…)

Melão. Ô, fruta sem graça…

Ganhamos. Comi um pedacinho.

– Tá duro, né?

– Logo amolece, disse a ele. Põe na geladeira.

Dia seguinte:

-Não amoleceu, tá duro ainda.

– Calma, disse eu.

No terceiro dia:

– Agora tá mole, tirei a casca.  Quer um pedaço?

(…)

Vivi. Vi.

No supermercado.

Ela: legging da cor pink-que-pariu. Salto alto. Uma “brusinha” ornando. O batom comendo em Sol Maior. Uma princesa bunduda. Farta princesa, diria.

Eu: bermuda jeans, camiseta, perna mecânica à mostra,  tênis, sem maquiagem.  Com as muletas.

De repente…Colocou dois pacotes de bolcha na bolsa da grife “luivitom”. Ela.

Fiz que não vi. Mas vi. Ela viu que eu vi. Falou:

– Eu tambem vou roubar esse governo ladrão e golpista tá, gato?

Tá!

(…)

A amiga jornalista-doida-de-tudo-e-mais-um-pouco foi entrevistar a cantora-compositora-amada-de-tudo-e-doida-de-tudo-e-mais-um-pouco.

Quem contou foi um cinegrafista, amigo meu, maravilhoso.

Depois do show, a entrevista. Em 1227. Ou seria em 1228? Ah…

A pergunta quilométrica da amiga. Aproximadamente 250 quilômetros de pergunta.

A resposta da entrevistada:

– Foi muito legal… Legal mesmo… O que você perguntou mesmo?

– Não sei… Ah, fala qualquer coisa que a gente edita depois… , respondeu a entrevistadora.

(…)

Nutria simpatia, à distância.

Dois pés atrás porque era um senhor conservador por possíveis pregações.

(…)

Certo dia, num certo ambiente de formalidade, evento repleto de altos e baixos nas escalas sociais e políticas; esnobes e ordenhadores de

tetas; de gente também de altíssima qualidade moral e intelectual, ele falava

sobre isso e sobre aquilo.

Com voz tamanha e intensa, falava sobre o evento solidário  e tal e tal.

(…)

Eu fazia um freela, dias de dureza, de jornalismo esporádico.

Agradeceu aos presentes. Agradeceu a presença do, da, de, e…

– Antônio Mariano, venha aqui, por favor…

Sem graça, fui.

(…)

Até os ordenhadores de tetas públicas me aplaudiram. Eu com a estima tão baixa, terninho batido, caneta esferográfica mastigada.

–  O que você pensa sobre mim, não sei… Pouco me importa, meu filho, as suas orientações religiosas e pessoais. Quero lhe dizer que você é um homem admirável…

E me entregou um diploma também oferecido a alguns.

Falou outros tantos elogios. Nem sei se sou tudo aquilo.

Chorei.

(…)

Eu o levo no coração, meu senhor!

(…)

O inusitado deixa qualquer um

bege. Passado. Úmido.

Se faço rir, também posso comover.

A graça é essa: viver.

 

 

Arquivado em: Antonio Mariano Jr, Colunistas, Vale a pena

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

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