

Por Elisiê Peixoto com relato de Carol Garcia Cid
Há sonhos que parecem distantes, quase impossíveis, até que a coragem e a determinação transformam o desejo em realidade. Foi assim com a londrinense Carol Garcia Cid, que realizou uma experiência inesquecível ao chegar ao Everest, um dos destinos mais desafiadores e emblemáticos do planeta. Uma jornada de superação, descobertas e emoções que merece ser compartilhada na coluna Passaporte.
Vamos acompanhá-la nessa aventura incrível?
Lukla: onde tudo começa! Antes mesmo de iniciarmos a caminhada, a aventura já começa no voo até essa pequena cidade nas montanhas. O aeroporto de Lukla é famoso por sua pista curta, cercada pelo relevo do Himalaia, e é considerado a segunda menor pista comercial do mundo. O pouso dá aquele frio na barriga e anuncia que estamos prestes a viver algo extraordinário. Ali, entre a emoção e a expectativa, demos os primeiros passos rumo ao Everest.
Foram dez dias de trilha pelas montanhas do Nepal, entre vilarejos cheios de história e acolhimento, paisagens de cenário de filme e pessoas muito especiais. Pelo caminho, atravessamos florestas, cruzamos rios e cachoeiras e, conforme ganhávamos altitude, vimos a paisagem mudar até chegarmos às montanhas cobertas de neve. Cada dia trazia um cenário novo — e uma surpresa diferente.

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Também atravessamos pontes suspensas sobre rios e desfiladeiros. No começo, elas davam um medinho… mas, depois de algumas travessias, a gente se acostuma — mesmo estando a três ou quatro mil metros de altitude! (risos)
Tudo foi feito com cuidado e segurança, respeitando o tempo do nosso corpo para se adaptar à altitude. Essa adaptação gradual se chama aclimatação. Em grandes altitudes, há menos oxigênio disponível, e o corpo precisa de tempo para se ajustar. O mal agudo da montanha pode causar dor de cabeça, enjoo, tontura, cansaço e falta de apetite. A falta de ar também pode aparecer, principalmente durante o esforço.
E caminhar na altitude é diferente de qualquer outra caminhada. O mais difícil não eram as subidas em si, mas a falta de ar. Cada passo exigia esforço, e a respiração ficava ofegante o tempo todo. Era preciso ir devagar, respeitar o corpo e seguir um passo de cada vez.


E o Everest? Ele é tímido. Demora para aparecer… e, às vezes, nem parece que estamos diante da montanha mais alta do mundo.
Mas, quando ele finalmente surge no horizonte, o coração sorri! Não importa quantas vezes a gente o veja: cada encontro tem um encanto próprio.
Os vilarejos por onde passamos — Lukla, Phakding, Namche Bazaar, Tengboche, Pangboche, Dingboche e Lobuche — são uma graça! Cada um tem seu encanto, com lojinhas, cafés, restaurantes, bares e a vida dos moradores locais. Por onde a gente passa, vai conversando, conhecendo um pouco mais da cultura e brincando com as crianças tão amáveis que encontramos.
Nossa turma era muito especial: tínhamos um guia nepalês, três porters, eu e a Ju, minha companheira brasileira de montanhas, três rapazes de Taiwan e uma australiana. Pessoas encantadoras, que Deus reuniu ali para viver essa aventura conosco.



No caminho, a gente também aprende a reconhecer os sons da montanha. Os burricos e os yaks carregam mantimentos, gás e equipamentos. Seus sinos vão cantando pela trilha e, quando a gente escuta, já sabe: é hora de encostar e dar passagem para eles.
A gente fica com dó dos animais, claro, mas esse transporte faz parte da vida e da cultura da região. E há também os porters, os carregadores que levam as bagagens e os equipamentos dos montanhistas. Cada um carregava cerca de 30 quilos! É impossível não admirar a força e a disposição deles.
Os nepaleses são pessoas agradabilíssimas: queridas, cheias de energia e com uma paz incrível. A espiritualidade está muito presente por lá. O Nepal é um país de religiões diversas, com uma presença importante do budismo, especialmente nas regiões por onde caminhamos. Fiquei com a sensação de que muitas pessoas carregam uma serenidade especial, uma vontade de fazer o bem e de espalhar boas energias.



Durante a trilha, ficamos nas tea houses: hospedagens simples que recebem os caminhantes pelo caminho. Algumas têm chuveiro de água quente, mas é preciso pagar à parte — em certos lugares, cerca de dez dólares. Quando só tem água fria, o lencinho umedecido vira nosso melhor amigo! Encarar temperaturas de zero a menos 16 graus já não é fácil nem com banho quente… imagina sem! (risos)
E a comida? O cardápio do café da manhã, do almoço e do jantar é bem variado. Carne não é tão fácil de encontrar pelo caminho, então muitas vezes a gente escolhe massas com molho de tomate, sopas e o famoso dal bhat, prato nepalês que costuma vir com arroz, sopa de lentilhas e legumes. Também comemos muuuitos ovos para ter uma fonte de proteína e, de vez em quando, dava até para comemorar quando aparecia uma latinha de atum!
Em Lobuche, fui ao café mais alto do mundo: o World’s Highest Bakery Café! Foi uma experiência especial — e também uma ótima oportunidade para recarregar as energias e o celular.
Nas tea houses, a energia vem principalmente de painéis solares, então nem sempre há tomadas disponíveis para carregar os aparelhos. Quando chegamos a uma vila, muita gente corre para os cafés em busca de internet e de uma tomada. Eu, confesso, acho ótimo poder me desconectar um pouco do mundo — embora ficar sem bateria e sem internet às vezes dê um certo sufoco!
Uma noite, acordamos e estava tudo branco. Parecia um cenário de filme em preto e branco! Nunca vou me esquecer do Mike, de Taiwan, vendo a neve cair pela primeira vez. A emoção dele ficou guardada na minha memória para sempre.



A paisagem estava linda, mas trouxe uma surpresa: não tínhamos nos preparado para caminhar na neve e estávamos sem os grampos para o gelo. O resultado? Foi tombo atrás de tombo! Na hora, era um susto a cada escorregão; depois, acabou virando motivo de risada e uma das histórias mais divertidas da viagem. A neve deixou tudo com cara de filme, mas também nos lembrou que, na montanha, o cenário pode mudar de repente — e que nem sempre a gente está preparada para o que encontra pelo caminho!

O voo de helicóptero na volta fechou a viagem com chave de ouro. Foi emocionante ver tão de perto aquelas montanhas que eu havia percorrido a pé.
Nessas caminhadas, a gente aprende muito e sempre volta melhor: mais amadurecida, menos “fresca”, dando mais valor às coisas simples. Aprende a enxergar beleza onde antes não via e, de alguma forma, também se sente cada vez mais perto de Deus.
Obrigada, Everest, por me receber, me abraçar e me permitir viver essa aventura tão sonhada!




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