
Por Antonio Mariano Junior
Amiga e eu apertados. Como nós de marinheiro, abraços e tristes.
A amiga extravasou várias vezes, soluçou alto. Gritou “Meu Deus!”
Daí o padre falou, assim, ou mais ou menos assim:
“Deus acolha a alma de nossa irmã Catarina”
(…)
Choramos na capela mortuária errada.
No velório errado.
Nunca vimos Catarina em vida.
(…)
Saímos de ré, do velório. Apertados.
Deus a tenha em bom lugar, Catarina!
(…)
Micos. Foras. Gafes.
Essas pernadas que a vida dá e faz a gente perder o rebolado.
(…)
Carão!
Histórias engraçadas conto também porque são igualmente rasteiras do
cotidiano.
(…)
Ricardo e Denise, casal lindo. Amigos de devoção.
Foram a um dos 90 milhões de brechós estabelecidos em Londrina, para
comprar uma determinada roupa para um determinado empreendimento
artístico.
Era inverno.
Ricardo experimentou diversos ternos no provador. Denise dizia “sim”, “não”,
“talvez”.
Ficaram de pensar e, talvez, voltar.
(…)
– Cadê a minha jaqueta cinza, que eu deixei aqui, perguntou Ricardo.
Foi vendida.
Vendida, enquanto Eduardo e Mônica, ou melhor, Ricardo e Denise ensaiavam
comprar.
Deram barraco.
A jaqueta de grife foi-se
(…)
Baile da terceira idade, à tarde.
Mais mulheres do que homens.
Miriam ouviu a mulherada reclamando que não aguentava mais dançar com a
amiga, com a comadre, com a vizinha, com a empregada, com a mulher do
cara do som, com a zeladora do clube, com a primeira alma feminina e
bondosa que aceitasse a contradança. A zeladora do clube vai para o céu!
Não havia homens dispostos a dançar.
(…)
Eis que Miriam avista um senhor vistoso, sentadinho, animado, a cabeça para
lá e para cá, ao som da música.
– Ah, o senhor vai dançar comigo, faço questão.
– Ah, eu não danço…, respondeu.
-Ah, vou levar como desfeita se o senhor não dançar comigo.
– Moça, eu não ando…
Teve paralisia infantil.
(…)
Fui gritar lá fora!
(…)
Todo engravatado, terno dos melhores, perfume em Fá maior. Ele.
Todo calça jeans, camisa com mangas dobradas, corrido, amarfanhado. Eu.
– Boa tarde, tudo bem? Sou Antônio Mariano, muito prazer! Desculpe a
demora.
Deu aquela escaneada típica dos que lançam olhos repletos de desdém. Ele.
– Vamos conversar na minha sala?
(…)
Olhou minhas muletas. Minhas mancadas.
– Foi futebol, perguntou?
– Não, foi amputação, respondi. Eu.
(…)
Sim, essa foi de propósito.
(…)
João Antônio foi fazer prova, no Detran, para receber habilitação e conduzir
motocicleta.
Chegou dirigindo a própria motocicleta.
Um guarda viu. Foi multado.
E reprovado.
(…)
Elaine, minha amiga de há tempos, compareceu a uma coletiva de imprensa
com uma dupla sertaneja famosa, até então.
Zico & Zeca. No auge.
Elaine, cansada de esperar, pediu uma água para o garçom.
Foi servida. Disse “muito obrigada”.
Era o Zeca, da dupla sertaneja. Que estava vestido com coletinho e gravata
borboleta. Um garçom, segundo ela.
Quando viu quem era…
(…)
Elaine, você é *#@&*#
(…)
Quem nunca pagou carão ou deu barraco é ruim da cabeça ou adora salada de
acelga.
(…)
Maria levou um “chega-pra- lá” físico de um rapazinho fininho, magrelinho,
Bebinho da Silva Quadros. O motivo e o local não importam, agora.
Quando voltei do banheiro, Maria gritava em todos os dialetos: “Covarde”,
“Filho da outra”.
– Quem foi?
– Aquele cara ali…
Macho pra baralho, fui e dei no magrinho, que estava ao lado do fininho.
A amiga gritou:
– Para!!!! É o outro!!!
Levei bordoadas do magrinho e do fininho.
(…)
Margarida fez um projeto profissional.
Li. Fiz algumas correções.
Sugeri uma capa, com o nome do projeto.
Pediu Margarida para a datilógrafa, por telefone, colocar o nome do projeto na
página inicial.
– Capricha, tá?
(…)
Tá!
A datilógrafa usou e abusou do vermelho e preto da fita máquina de escrever.
Ficou lindo de morrer…
Projeto foi devolvido com vários pontos de interrogação na capa; uma palavra
sublinhada por caneta raivosa.
A palavra, em letra maiúscula, foi assim datilografada:
PROGETO!!!
(…)
Sabe a Elaine, da coletiva, do colete, da água, do Zeca? Tenho várias
histórias…
(…)
Abriu a porta. Chegou e foi oferecendo produtos para a minha esposa.
Insistiu. Insistiu. Insistiu. Torrou a minha breve paciência.
A vendedora cutucou a onça com a vara curta quando falou:
– Qual homem não gostaria de ver sua esposa usando isso? Qual, hein?!
(…)
Eu!
Quando expliquei que disse que o buraco era mais acima, que minha “esposa”
tinha barba, como eu; que usava cuecas, como eu; que nunca vimos rastro de
cobra, nem couro de lobisomem; essa coisa de homem com H e com H somos
muitos homens; que “entendeu, ou quer que eu cante em ritmo de chorinho?”
As pupilas da vendedora dilataram-se. Falou assim, enquanto enfiava as
lingeries de volta na sacola:
– Morri, me enterra. Pode socar a terra com o pé, tá?!
(…)
Ficamos amigos.
(…)
– É a sua mãe?, perguntou uma amiga, num shopping
– …
– Vai tomar no meio do seu…
A “minha mãe” era a Margarida, do “Progeto”.
Renovei meu repertório de palavrões.
(…)
– Já namorei aquele cara ali. Não deu certo, que pena…
– …
Era o pai do amigo da amiga do colega da colega da amiga da vizinha da
galinha magricela e depenada que brigou com a rosa debaixo de uma sacada e
que tudo mais vá pro inferno meu bem…
(…)
Alaor, não insiste… o nome eu, tu, ele, nós, vós, eles… Nem sob tortura!
(…)
Eu, hein?!
(…)
O nome do pai é Mico.
O nome da mãe Gafe.
(…)
Sobrenome: Faz Parte da Silva.
(…)
Da Silva Quadros.
(…)
Barracão de zinco, sem telhado…
(…)
Acelga, coisa mais sem graça.
(…)
Espaço aberto aos portadores de graças e gafes próprias e/ou alheias.
Aos bem temperados pela vida.
(…)
Quem começa?
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