Especialista alerta para índice preocupante de diagnostico em crianças e para regiões silenciosas para hanseníase num país de alta endemicidade

O Brasil encerrou 2024 com mais de 27 mil pessoas em registro ativo para hanseníase, segundo os dados do Ministério da Saúde. O número, que reúne pacientes em tratamento ou acompanhamento, reforça que a doença — embora curável e com tratamento gratuito pelo SUS — continua sendo problema de saúde pública no país.
O cenário acende ainda mais o alerta diante do registro de mais de 900 casos novos em menores de 15 anos em 2024. Para a Sociedade Brasileira de Hansenologia (SBH), esse é um dos indicadores epidemiológicos mais graves e sensíveis.
“O diagnóstico de hanseníase em menores de 15 anos mostra falhas na vigilância dos contatos e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. É sinal claro e inaceitável de que a transmissão da doença continua acontecendo dentro das comunidades e, muitas vezes, dentro das próprias casas, revela cadeia de transmissão ativa que não foi interrompida a tempo, adultos sem diagnóstico ou com diagnóstico tardio, sofrendo e transmitindo a doença”, afirma Marco Andrey Cipriani Frade, presidente da SBH. “Nenhuma criança deveria adoecer por uma doença que tem diagnóstico simples, tratamento eficaz e cura.”
Outro ponto de grande preocupação destacado pela SBH são as chamadas regiões silenciosas para a hanseníase — localidades que registram poucos ou nenhum caso não porque a doença não exista, mas porque não está sendo diagnosticada. “Silêncio epidemiológico não é boa notícia. É sinal de invisibilidade”, alerta o presidente da SBH. “Onde não se diagnostica, a hanseníase continua se espalhando.”
Brasileiros se destacam em pesquisa
Paradoxalmente a esse cenário preocupante, o Brasil também desponta como referência mundial em pesquisas inovadoras para o enfrentamento da hanseníase, concentrando alguns dos principais centros de investigação da doença no mundo.
O país lidera estudos sobre novas estratégias de diagnóstico precoce, incluindo testes laboratoriais mais sensíveis para detecção da infecção antes do aparecimento de sequelas; pesquisas em imunologia e genética, que ajudam a compreender os prováveis desfechos do paciente ao se infectar, se vai ter uma boa resposta ao tratamento, se fará reações hansênicas etc.; pesquisas em andamento para vacina e atualização de novos esquemas de tratamento mais eficazes e ainda sobre estratégias de rastreio de casos, com uso de inteligência artificial.
Já está em uso a estratégia de rastreio de casos – desafio para o Brasil – que estimula e habilita a população a suspeitar da doença. Pesquisadores conseguiram simplificar, em um questionário de 14 perguntas, o autoexame que pode ser feito até por crianças alfabetizadas. Outra pesquisa usa inteligência artificial e análise de dados que aponta casos suspeitos nas respostas dos questionários com assertividade próxima à análise humana e que também ajuda no diagnóstico e a tomada de decisão nos serviços de saúde. “A estratégia é barata e replicável para países endêmicos”, explica o presidente da SBH, que conduziu as pesquisas pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP (FMRP-USP). “Estamos vencendo o desafio de transformar a ciência em acesso e diagnóstico precoce.”
Outro estudo conduzido por Frade, FMRP-USP, apresenta novo esquema terapêutico: uma combinação de antibióticos já utilizados — rifampicina, moxifloxacino, claritromicina e minociclina. A proposta não é apenas mais eficaz para eliminar o bacilo causador da hanseníase, como promove recuperação mais rápida da sensibilidade da pele e da força muscular, reduzindo as chances de sequelas. A pesquisa com 66 pacientes acompanhados por oito anos, de 2015 a 2023, mostrou recuperação rápida dos danos neurológicos, melhora dos sintomas e da sensibilidade nas mãos e nos pés já no terceiro mês, com melhora progressiva, mantida após o término do tratamento, incluindo redução de pacientes com incapacidade física definida.
Outro desafio é a atualização e mudança de formulações das drogas. O tratamento fornecido aos países pela OMS tem sido efetivo, mas é um coquetel de antibióticos usados há 40 anos sem atualização, sem apresentações para o público infantil, e estudos apontam cepas resistentes e índices preocupantes de recidiva e falência em tratamentos. As pesquisas estão avançadas no Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe) e Faculdade de Farmácia da UFPE com investimentos do Ministério da Saúde, buscando novas apresentações e formulações em nanotecnologia para dapsona e clofazimina, além de buscarem novas drogas para o tratamento da hanseníase.
“Tudo isso aponta para uma soberania do Brasil em hansenologia”, diz o presidente da SBH.
O Brasil recebe, em 2028, o Congresso Mundial de Hanseníase. Em dezembro/2025, os hansenologistas Cipriani Frade, Claudio Salgado, da Universidade Federal do Pará, e Helena Lugão (Ribeirão Preto-SP) foram convidados pelo governo chinês para o Fórum de Cúpula sobre Prevenção e Controle de Precisão da Hanseníase. Nos últimos anos, o presidente da SBH tem sido convidado para debater o enfrentamento à hanseníase naquele país.
*Texto e foto: divulgação


Parabéns, pessoal! O tema hanseníase não é tão faladoquanto deveria. Por falta de informação, conscientização, o Brasil enfrenta um cenário de preconceito desumano. E preconceito só se enfrenta com informação de valor. Daí que a divulgação no portal é um grande serviço de utilidade.
obrigado por seu comentário. abraços claudia