
Cada vez mais pessoas investem em renda extra e duplicam a jornada. Trabalham dentro e fora de casa
Por Elisiê Peixoto
Pode ser a crise financeira que bate à porta, um talento que precisa ser mostrado, uma segunda opção de trabalho, um lazer que acabou se transformando num negócio. Não importa. O fato é que, cada vez mais, cresce o número de profissionais que se dedicam a fazer algo em suas casas, onde acabam montando uma oficina, uma cozinha, um ateliê.
Tem sido comum se deparar com jovens que não estão realizados profissionalmente, ou pessoas maduras e até aposentados que optam em fazer algo para aumentar a renda familiar. São adultos com alguns anos de mercado que, desmotivados profissionalmente, iniciam um novo negócio. E que pode começar pequeno e se transformar numa grande empresa.
Várias pessoas optam pela dupla jornada, trabalham em escritórios e depois chegam a dar “plantão” em casa, trabalhando em seus negócios “caseiros”, mas que agregam, ajudam e, acima de tudo, revelam vocações, talentos e gostos. O Portal Ideia Delas conversou com quatro mulheres que diversificaram, cresceram, estão realizadas e felizes, trabalhando em casa e fazendo o que gostam. Deram oportunidade ao talento e, com isso, aumentaram a renda familiar e com chances de crescerem ainda mais. A receita é simples: acredite, persevere e invista. Elas seguiram à risca e com sucesso.
Talento na prática
Thaisa Montosa Alcântara, 35 anos, casada, mora em Belo Horizonte (MG) e desde os 13 anos adora criar bijuterias. “A primeira vez que entrei numa loja que vendia acessórios para bijoux fiquei enlouquecida, fascinada pelas peças! Comecei timidamente e adorava presentear com as minhas criações. Mas foi na época da faculdade que comecei a vender para as amigas e conhecidas. Sempre busquei fazer peças diferentes das convencionais e abusar da criatividade. É um negócio que exige paciência, criatividade. De lá para cá, nunca mais parei. Fui me profissionalizando. Sempre fiz tudo na minha casa, no meu canto, sou detalhista”, conta a designer, que hoje, com uma filha pequena, diminuiu o ritmo de trabalho e terceiriza boa parte do material. “Minha vida mudou totalmente com a chegada da Antonella. No começo foi mais difícil, pois ela dependia cem por cento de mim. Hoje ainda depende, mas já brinca sozinha, vai para a escola. E com isso eu consigo cuidar mais da casa e trabalhar. Não é fácil porque fico muito cansada, mas faço tudo com muita alegria. Amo a minha família, a minha casa e o meu trabalho. Então, durante o dia vou fazendo um pouquinho de cada coisa, conforme a necessidade. E, claro, sempre pesquiso, visito feiras, navego na internet e, quando viajo, busco tendências. Minha marca Thaisa Montosa é um sonho realizado. O próximo é criar uma marca infantil”, finaliza.




http://thaisamontosa.com/
Acredite em você
A dona de casa Josiane de Moraes Santos, 54 anos, moradora de São José do Rio Preto, interior do Estado de São Paulo, conta: “Por ter um filho com necessidades especiais, optei por trabalhar em casa. Quando ele ainda era bebê, comecei fazendo bombons e ovos de chocolate, sabonetes e sais de banho, lembrancinhas de papel vegetal, pintura country, etc. Em 2001 me interessei pelo biscuit (também conhecido por porcelana fria, isso porque não precisa ir ao forno e sua secagem se dá ao ar livre), após assistir a uma reportagem na televisão. Fiz algumas aulas para aprender o básico. Também busquei informações em revistas, fui me virando, errando e aprendendo. Também busquei aprendizado em modelagens. Hoje me encontrei nesse mundo mágico do biscuit, caí de amores por essa massinha, pois com ela há infinitas possibilidades!” Ela possui uma página no facebook em que expõe suas criações. São lembrancinhas de aniversários, casais de noivinhos para enfeitar bolos, bonequinhas, etc. Por mês, é produzida uma média de 150 a 200 peças. O trabalho é muito delicado e detalhista e um casal de noivos chega a demorar três dias para ficar pronto.
https://www.facebook.com/josie.artesanato



Com a mão na massa
Para Celi Anizelli Mazzo, 56 anos, residindo em Curitiba, o maior incentivo veio da mãe, que lhe disse quando ainda era criança: “Filha, você tem uma missão importante nesta vida, você é diferente”. Ela conta: “Ainda menina, como entender o que seria ‘diferente’ ou ‘missão’? Mas como o que é nosso chega no tempo devido, tomei a frase da minha mãe como uma promessa. E nunca desisti. Depois de uma tentativa frustrada de preparar uma receita sozinha e o pão ficar duro feito pedra, fui aprender a fazer pão com ela própria, minha mãe, há pelo menos 15 anos. Pegamos uma receita e conseguimos produzir quase cem lindos pãezinhos numa fornada só. A partir daí os pães eram feitos toda semana na minha casa para a família e amigos que passavam para tomar café e prosear. Eu os fazia sem nenhuma pretensão, não pensava neles como um negócio ou como ofício”. Mas em 2013, ao enfrentar uma crise depressiva, sem perspectiva e sem trabalho, e incentivada por amigos, Celi procurou um curso de panificação. Ela havia gerenciado uma empresa na área de logística de distribuição e não conseguia se ver fora do modelo cartesiano de trabalho. E foi num reencontro com uma amiga, Vera Baptista, que o talento despertou. “Foi ela que me impulsionou e assim me especializei. Aos 52 anos recomecei e nesse caminho tive uma grande ajuda de Helma Thomaz. Ela cuidou do meu filho para eu aprimorar, aprender. O caminho do pão só tem resultados depois de muito trabalho e persistência. Nas oficinas que organizo aqui em Curitiba, o que me realiza é quando vejo um aluno emocionado com o pão que fez. E minha mãe tinha razão quando disse a respeito de ter uma missão nessa vida. A minha com certeza é ensinar a fazer pão! Nas aulas, brinco que todo aluno deve se ‘empãoderar’”, comenta a futura empresária. Ela tem um projeto: formar um pequeno núcleo de padeiros artesãos. “E daqueles que entendem como usar a matemática para criar novas receitas, equilibrar fórmulas, combinar especiarias, ervas, sementes, a partir dos quatro elementos fundamentais do pão: farinha, água, fermento e sal. Pretendo ter nesse espaço um lugar para estudos, pesquisas e experiências. Meu objetivo é formar padeiros que não só operem máquinas ou se prendam a receitas, mas que também estudem e conheçam a história do pão, suas origens, seus caminhos e sua evolução. Quem sabe, até lá, ter minha própria loja e ter a honra de me sentar com você para partilharmos um pouco da vida e do pão”, conclui.



https://www.facebook.com/celianizellipaesartesanais
Do vício ao ofício
Andressa Tuttis Marroni, 34 anos, trabalha com brigadeiros, dona da marca Maria Negrinho Gourmet. “Surgiu de uma forma inesperada, ainda quando eu morava em Minas Gerais. Chocólatra desde pequena, não passava um dia sem comer o tão famoso neguinho (como dizem no Sul). E quando eu fazia panela de brigadeiro, as amigas adoravam e pediam mais. Assim resolvi criar e inovar no comércio de guloseimas de Belo Horizonte, onde eu morava em 2010. E foi muito bem-aceito, eu vendia muito. Trabalhava num jornal e fazia brigadeiro para fora. Quando voltei para Londrina, trouxe a marca. Eu invento, experimento, crio, renovo, busco novidades e hoje são mais de 20 sabores e embalagens diferenciadas”, conta. Além disso, Andressa cria lembrancinhas personalizadas para chá de panela, chá de lingerie, aniversário, batizado, recém-nascido. E tem um sonho, algo que a faz se aprimorar cada vez mais: “Quero expandir, montar um espaço, talvez um café, vender meus brigadeiros e várias outras coisas gostosas que sei fazer. Atualmente trabalho em dupla jornada, porque tenho outro emprego e, tudo aquilo a que me dedico, busco fazer com excelência. Creio que esse é o segredo, fazer tudo com paixão, amor, determinação. É cansativo, sem dúvida, porque tem encomenda, os finais de semana muitas vezes são na cozinha. Mas é tudo tão produtivo, saboroso, que a cada encomenda pronta o sentimento é de missão cumprida. O que me dá plena realização. Já se passaram sete anos e continuo na ativa, me aprimorando e, passo a passo, crescendo”.






Parabéns a todas! Um trabalho mais perfeito que o outro