
Por Antônio Mariano Júnior
Só como tomates
sem as inúmeras reticências internas.
Salada.
(…)
Antônio, pai meu, tirava
os estofos gramaticais
dos tomates
com praticidade cotidiana.
Sei lá o porquê.
(…)
A inexistente poesia
do arrancar sementes e
misturar no pirex:
tomates sem estofo, rodelas
de cebola, limão, azeite.
Era poeta o meu Antônio.
(…)
O toque salino, por conta
do ritmo batucado nos
saleiros recheado com sal e
arroz cru.
(…)
Quando à vontade, um caxixi
sobre os tomates.
Do you like samba?
(…)
Sob regência da mãe,
compasso quaternário.
A pressão e dois e três e
quatro; a mãe e dois e três e
quatro; chega e dois e três
e quatro; de sal e três e
quatro.
(…)
Com ela chegou o canto,
gorjeio dos sabiás/
trá-lá-lá…
(…)
Laririiiiiiiiiiiii
(…)
Aos domingos presto pouco,
sirvo ao apenas viver pacato e interiorano;
Tomates em salada não
faltam; cebolas, azeite.
E tal.
(…)
Com a faca pequena e
habilidade herdada,
domingo último,
retirava as configurações
de dois e três e quatro
tomates.
O terceiro, sem argumentos,
mostrou-se,
ao final,
todo coração.
(…)
No prato transparente.
Fotografado um coração de tomate.
(…)
Não, não foi moldado.
Fosse talhado
graça nenhuma teria.
(…)
De: Vladimir Vladimirovitch Maiakovski
“Nos demais,
todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do
peito,
mas comigo a anatomia ficou
louca,
sou todo coração”.
(…)
Comi.
Com sal.
Pouco.
(…)
Ainda sob a batuta de
metrônomos zelosos;
corações dos meus findos.
(…)
Idos, findos, enterrados.
Deixaram til no ão e
aliterações.
Chove chuva chorando,
saudades e ossos deixaram
(…)
Deus retira o til do próprio
coração quando decide
reduzir a humanidade ao pó;
aos poucos.
(…)
Pulso fora da anatomia.
Alguém mais?
Hein?


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