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O problema não é “ser velha aos 62”; o problema é como a sociedade encara o envelhecimento

14 de março de 2025 por Claudia Costa Deixe um comentário

 

A atriz Claudia Ohana trouxe o debate sobre envelhecimento ao protestar contra o etarismo, mas até que ponto essa narrativa abrange a realidade da maioria das mulheres com mais de 60 anos e incentiva conversas a respeito do processo de envelhecer?

 

Candice Pomi , psicóloga especializada em Gerontologia pelo Albert Einstein e defensora de que o envelhecimento é uma fase a ser encarada com leveza e preparo prévio,

“Nós não estamos velhas aos 62.” Com essa frase estampada em um cartaz, a atriz Claudia Ohana fez, à sua maneira, um protesto contra o etarismo na Avenida Paulista. A manifestação viralizou, trazendo à tona a discussão sobre como a sociedade encara o envelhecimento. Mas, para a especialista em longevidade Candice Pomi, o verdadeiro impacto estaria em uma abordagem ainda mais inclusiva sobre o que significa envelhecer.

Segundo Candice, o problema está em afirmar que não se é velha aos 62, negando o envelhecimento como algo natural e diverso. “O que seria realmente revolucionário seria dizer: ‘Isso também é ser velha aos 62′. Porque a verdade é que envelhecer é universal, mas o processo de envelhecimento é totalmente heterogêneo. Cada um envelhece de acordo com sua história, seu estilo de vida, sua biografia.  Existem muitas outras formas válidas de envelhecer. A melhor delas é aquela em que não negamos que estamos envelhecendo porque estamos, sim. E ainda que esse processo tenha suas dores, é um sinal de que a vida está acontecendo da maneira certa, afinal, ainda estamos aqui”, explica Candice. 

Quando uma mulher com uma voz que ecoa em uma população, como a da atriz, hasteia uma bandeira que nega o envelhecer, automaticamente educamos a população – longeva e ainda jovem – que o adjetivo “velho” é pejorativo. E não é. “Envelhecer é parte do processo e a maneira como encaramos isso – para nós e para os outros – tem o poder de mudar um estigma tão enraizado. Envelhecemos desde o momento em que saímos do ventre materno, mas cada um irá construir sua forma própria de envelhecer através de suas escolhas. Por outro lado, não se pode romantizar o envelhecimento, pois sim, como em outras etapas da vida, esta também traz desafios importantes. O que não está tudo bem é estimular a negação ao processo de envelhecimento, já que será certamente a mais longa fase que enfrentaremos ao longo da vida”, completa a especialista.

O Brasil está envelhecendo rapidamente. Segundo o IBGE, até 2050, cerca de 30% da população brasileira terá 60 anos ou mais. Em um país onde a expectativa de vida tem aumentado, é essencial repensar a visão sobre a velhice. “Hoje, 15% da população já tem mais de 60 anos, mas ainda vemos uma grande resistência a aceitar esse período da vida de forma positiva. Não se trata de negar o envelhecimento, mas de ressignificá-lo“, acrescenta Candice.

Além disso, o recorte da manifestação de Claudia Ohana representa uma realidade muito específica: uma mulher branca, de classe média, com acesso a cuidados e visibilidade na mídia. Esse não é o cenário da maioria das mulheres acima dos 60 anos no Brasil. “Muitas mulheres negras, periféricas e trabalhadoras ainda precisam enfrentar longas jornadas de trabalho, dificuldades financeiras e barreiras de acesso à saúde. Quando dizemos que ‘não estamos velhas aos 62’, quem estamos incluindo nessa afirmação? Esse discurso pode acabar inviabilizando a realidade de quem não tem os mesmos privilégios“, analisa Candice.

O mercado de trabalho também reflete o etarismo estrutural: dados do IBGE apontam que o desemprego entre pessoas com mais de 50 anos é significativamente maior do que em outras faixas etárias. “O problema é que a palavra ‘velha’ ainda carrega um peso negativo. E por isso, muitas mulheres sentem necessidade de reafirmar que ‘não são velhas’. Mas ser velha pode e deve ser algo positivo! Velha, sim, e incrível, produtiva, desejada, saudável e potente“, ressalta Candice.

A especialista destaca que, ao negar a palavra “velha”, corremos o risco de perpetuar um preconceito disfarçado. “Negar a velhice em 2025, quando a expectativa de vida atinge os maiores picos da história, é no mínimo negacionista. Precisamos enxergar essa fase da vida com mais naturalidade“, afirma Candice.

“A revolução seria naturalizar todas as formas de envelhecer. O problema não é ser velha, e sim o que a sociedade impõe como limitação para essa fase da vida. É hora de ressignificar o termo e celebrar a diversidade do envelhecimento“, conclui.

Se queremos combater o etarismo, precisamos abrir espaço para todas as vivências e mostrar que ser velha não é um problema. Pelo contrário, pode ser um privilégio.

Sobre Candice Pomi
Depois de 24 anos de carreira no mercado corporativo, Candice decidiu investir naquilo que acredita ser realmente importante na vida: saber envelhecer bem. E assim, com cara e coragem, mergulhou nos estudos da Longevidade. Psicóloga, especializada em Gerontologia pelo Albert Einstein e defensora de que o envelhecimento é uma fase a ser encarada com leveza e preparo prévio, Candice desenvolveu o Programa de Mentoria em Longevidade®, com o propósito de inspirar indivíduos e grupos a planejarem de forma intencional suas jornadas de envelhecimento.

E assim, desde 2019 tem auxiliado corporações no combate ao Etarismo e  orientado grandes marcas na construção de diálogos mais autênticos com o público 45+.

Co-autora do 1º Manual Boas Práticas contra o Etarismo da América Latina – em parceria com a ABA (Associação Brasileira de Anunciantes), a especialista tem a missão de ressignificar o Envelhecimento no Brasil e democratizar a cultura gerontológica através de seus escritos sobre Envelhecimento Ativo e Consciente com a sua marca, a Beyond Age.

Em 2024 estreou como apresentadora do Podcast “Tantos Tempos”, que aborda o tema “Longevidade” com diferentes perspectivas através de uma dupla de convidados.

Arquivado em: Comportamento Marcados com as tags: #mulheres, #produtividade, claudiahohana, combateaoetarismo, competência, comportamento, envelhecer e produzir, envelhecimento saudável, especializada em Gerontologia pelo Albert Einstein e defensora de que o envelhecimento é uma fase a ser encarada com leveza e preparo prévio, etarismo, longevidade, machismo, mulher, mulher trabalhadora, mulheres+60, portal ideia delas, preconceito, profissional

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

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