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As Açucenas: o espetáculo evoca a memória poética de Federico Garcia Lorca

19 de novembro de 2019 por Claudia Costa Deixe um comentário

 

O Sesc Copacabana recebe de 28 de novembro a 15 de dezembro, a estreia nacional do espetáculo As Açucenas, com o Núcleo de Vivências em Arte – Nuviar, com sede em Paraty-RJ. A peça instaura uma atmosfera onírica a fim de homenagear o poeta Federico Garcia Lorca e através dele compor uma pequena ode a poesia. Evocando as presenças da noite, da lua, dos duendes, dos peixes, da faca e do cutelo, os artistas Davi Cunha, Marcos Rangel e Rodrigo Carinhana emprestam sua carne, seu sangue, suas memórias ancestrais, seu suor, seus gestos, e pouco a pouco assim, o público verá ressurgir diante dele o corpo desaparecido de Lorca, assassinado pelos fascistas do General Franco. As sessões de As Açucenas acontecem de quinta a domingo, às 18h, com ingressos a partir de 15 reais.

As Açucenas pretende atravessar as fronteiras e limitações corpóreas, estéticas e conceituais de linguagem a fim de atingir a plenitude do estado de ser dos atores. Nesse sentido, a obra propõe um encontro com os espectadores que vai além das convenções teatrais como forma de expressão artística, compartilhando uma estrutura de ações vivas e precisas no espaço de maneira plena e sincera que porta fragmentos da vida e obra de Lorca, iluminando toda a sua densidade poética e humana.

– Em As Açucenas, evocamos a memória poética de um corpo desaparecido. Um corpo insepulto que, por sua trajetória de vida, seu posicionamento político e sua conduta afetiva, foi assassinado. Decidimos trazer para a cena Federico García Lorca neste momento por acreditarmos que, assim como em sua poesia, a biografia do poeta e dramaturgo traz consigo pontos comuns para refletirmos nos dias de hoje. Sua poesia, obra exímia, guia-nos rumo às profundezas do universo dos símbolos, da morte, da melancolia e dá voz a dores e dramas, mas também fala de amor e esperança e traz sensibilidade e poesia como possibilidade de transcender o obscurantismo pelo qual passamos no momento –, comenta o diretor Davi Cunha.

A concepção artística e a dramaturgia musical de As Açucenas

A concepção artística e estética do trabalho é resultante do contato entre os atores, de uma seleção de poesias – de acordo com a identificação de cada um com o poema a ser falado – de cantos tradicionais espanhóis e de outras culturas e das ações criadas em sala de trabalho diariamente. Aos poucos foram entrando no espaço objetos para potencializar essas ações. Diante dessa proposta, As Açucenas não possui cenário e nem um “figurino” enquanto conceito tradicional das artes cênicas, e sim a utilização de uma roupa de trabalho, no caso, calças e camisas sociais, que fogem a caracterização, pois não há personagens.

A direção musical tem a peculiaridade de não possuir uma percepção inicialmente estética e simbólica ligadas a vida e obra de Garcia Lorca, mesmo que em alguns momentos essas características vibrem em sintonia com o poeta. As sonoridades dos objetos, instrumentos e vozes se fundem a serviço da presentificação das ações. As canções não possuem a função tradicional de trilha, mas evocam a própria ação. Foram chegando ao trabalho muito mais pela suas temperaturas, cores e características energéticas. Algumas carregam sentido na vida do poeta, como Gallo Rojo Gallo Negro, canção composta em 1963, por Chico Sánchez Ferlosio, durante a ditadura franquista, outras são poemas musicados, como Canción de Jinete, musicado por Paco Ibañez, e outras ainda de diferentes tradições e lugares do mundo. Sobre estas, nada de simbólico pode ser elaborado em relação a vida e obra do poeta, mas portam qualidades vibratórias específicas que compõem a dramaturgia musical da presente obra.

O certo é que a estética pouco a pouco foi se consolidando sempre a serviço do trabalho artístico. Espetáculo teatral, sarau poético, performance, obra artística, encontro… Os nomes são tantos que pode-se flertar com a subjetividade e deixar a cargo de quem o presenciar.

A busca artística do Nuviar

O que está guiando o trabalho do grupo atualmente são as influências vividas pelos três artistas em suas trajetórias. Trazem nos corpos as experiências vividas nas salas de trabalho com os mestres e grupos de pesquisa por onde estiveram e nas almas os anseios, inquietações e ponderações como combustível para o fazer artístico. Dessas experiências desenvolvem uma linguagem própria de trabalho por meio de elementos que consideram fundamentais: impulso, energia, centro, fluidez, equilíbrio, precisão, ritmo e contato. Através desses princípios mergulham em processos orgânicos e não mecanizados para a instauração do que chamam de Terreno Criativo, lugar de fértil busca para o ator, um meio de aprofundamento sobre si através da sua prática. Outro forte pilar de trabalho do Núcleo é a pesquisa sobre os cantos de tradição e a ação do canto. “Acreditamos que elas carregam aquilo que de alguma forma está dissipado e muitas vezes ignorado na arte contemporânea: a mobilização da energia para a realização do ato, da ação.” Pensando em revisitar instrumentos antigos de canalização da energia, o grupo desenvolve uma pesquisa minuciosa com cantos populares e de tradição.

O Nuviar é formado pelos atores-pesquisadores Davi Cunha (RJ), Marcos Rangel (RS) e Rodrigo Carinhana (SP), que integram outros importantes grupos de pesquisas teatrais: o Ponte dos Ventos (Grupo Internacional dirigido e coordenado pela atriz Iben Nagel Rasmussen), desde 2018; o Patuanú (Núcleo de Pesquisa em Dança de Ator), coordenado por Carlos Simioni, desde 2010; e o APA (Ateliê de Pesquisa do Ator), projeto do Centro Cultural Sesc Paraty em parceria com Stephane Brodt (Amok Teatro) e Carlos Simioni (Lume Teatro), desde 2016, e Thaís Teixeira, produtora cultural especializada em Artes cênicas, cearense, moradora do Rio de Janeiro, há 14 anos, onde trabalhou intensamente na produção cultural com sua produtora EmCartaz Empreendimentos Culturais, e nos últimos anos passou a viver em Paraty, onde cruzou o seu caminho com os artistas e passou a integrar o NUVIAR.

O Nuviar foi fundado em 2013 com o objetivo de criar um espaço para a pesquisa artística no tempo dilatado, através de um trabalho diário onde são experimentados questionamentos sobre o ofício do ator/performer.

Texto: Ney Mota

Ficha técnica

Concepção e dramaturgia: Nuviar
Direção: Davi Cunha
Atores: Davi Cunha, Marcos Rangel e Rodrigo Carinhana
Supervisão Geral: Rodrigo Mercadante
Colaboradores: Carlos Simioni e Camilo Scandolara
Direção Musical: Rodrigo Carinhana
Iluminação: Aurélio de Simone e Guiga Ensá
Designer Gráfico:  Fábio Viana
Fotografia: Dalton Valério
Produção: Thais Teixeira
Realização: Núcleo de Vivências em Arte – Nuviar

Serviço

Local: Sesc Copacabana
Endereço: Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana, Rio de Janeiro
Temporada: 28 de novembro a 15 de dezembro de 2019
Dias e horário: de quinta a domingo, às 18h
Ingressos: R$ 7,50 (associado do Sesc), R$ 15 (meia-entrada), R$ 30 (inteira)
Informações: (21) 2547-0156
Horário de funcionamento da bilheteria: terça a sexta das 9h às 20h, sábados, domingos e feriados das 12h às 20h.
Classificação: 12 anos
Duração: 60 minutos

Arquivado em: Acontece

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

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