Edilson Pereira

Cinema é negócio. Tudo bem. Mas cinema também é arte. Este é o tipo de papo que muita gente puxa a velha frase: “Quem gosta de cinema de arte é europeu”. Verdade. Americano prefere cinema como negócio e entretenimento. Sempre foi assim. Grande negócio, por sinal. E muitas vezes bom entretenimento. Tudo bem que cinema pode ser negócio. E tudo bem que também pode ser arte. Mais ainda: arte e negócio podem andar juntos. Exemplos não faltam. Leilões que vendem um Van Gogh por 70 milhões de dólares e outro Picasso por 90 milhões, quadros que quando pintados podiam ser comprados por menos de mil dólares, principalmente os do holandês que vendeu apenas um quadro em vida de sua imensa produção, confirmam este princípio.

Então boa arte também pode ser bom negócio. E por que nem sempre é? Porque o sistema não tem interesse. Principalmente em arte contestadora. Arte que leva o espectador a refletir e questionar. Sem contar que nem todo espectador está a fim de refletir. E muito menos de questionar. Então o sistema prefere virar as costas para este tipo de cinema. Só recorre a ele para dar lustre de sofisticação no catálogo. Gastar dinheiro com filme de arte em vez de contratar agência de publicidade para melhorar a imagem sai mais barato. Os caras do negócio não são bobos. Se fossem não estariam lá. E também não é de hoje que o cinema além de bom negócio, também pode ser mecanismo de manipulação coletiva. Que diga o finado ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels, que encomendou a Leni Riefenstahl o filme “O Triunfo da Vontade”.

E que diga Hollywood que produz filmes que custam centenas de milhões de dólares e arrecadam cifras assustadoras, acima de um bilhão de dólares. O sistema funciona como máquina azeitada. Para vender mais e controlar mais o produtor empobrece a qualidade do produto. É a velha junção da fome com a vontade de comer. No entanto, como cinema é negócio, os pólos competiram entre si e como acontece na guerra, venceu o mais forte. Hollywood. Com isso, cinematografias criativas e que por décadas contribuíram para inundar o mundo com uma diversidade benéfica para o espectador acabaram sufocadas e desapareceram cedendo terreno para o monopólio ideológico e financeiro de Hollywood que controla o mercado com voraz ferocidade.

Nada disso é novidade embora a maior parte dos espectadores mundo afora não perca tempo para pensar no assunto. Theodor Adorno e Max Horkhmeier já trataram dele há quase 100 anos ao escreverem sobre a indústria cultural e sua importância na formação coletiva na sociedade de massas. Os dois são ainda mais diretos. O objetivo desta indústria de massa não é produzir arte. É oferecer produtos para atender a um prazer compensador e efêmero. O objetivo é agradar aos indivíduos e não levá-los a refletir. Ela cria um monopólio que em vez de contribuir para a reflexão reforça a postura acrítica, gerando espécie de dominação cuja função principal é a de desarticular qualquer tipo de revolta contra o sistema. Os indivíduos que consomem estes produtos consensualmente com a falsa sensação de felicidade e satisfação são passivos objetos receptores e não homens que pensam.

A conversa parece cacete e ideológica, mas não é. Porque o que não é muito bom tem a tendência de ficar pior. E é o que está acontecendo com Hollywood hoje em dia. Mesmo dentro de um sistema de cultura de massas, a diversidade é fundamental. A natureza funciona assim. Eu fui adolescente numa época em que víamos filmes de todos os lugares. Filmes japoneses e entre eles havia um mestre como Akira Kurosawa, filmes mexicanos e entre eles havia um talento cômico como Mário Moreno, conhecido por Cantinflas, filmes suecos entre os quais encontrava-se Ingmar Bergman, filmes franceses com Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais, filmes italianos com mestres como Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Vittorio de Sica, Giuseppe Tornatore, Luchino Visconti, Roberto Rosselini, Pier Paolo Pasolini e outros. E também filmes de outros países como Espanha com Saura e Buñuel, Inglaterra, Alemanha e assim por diante.

A importância da diversidade é proporcionar uma visão diferenciada da realidade. E além da reflexão, os filmes destes diretores eram muitas vezes divertidos e contribuíam para a educação sensorial do espectador. Filmes como “Cinema Paradiso”, de Tornatore, são exemplo disso. Este prazer aliado com a reflexão não acontece hoje em dia com a maioria esmagadora das fitas que inundam salas e tevês. Claro que historicamente Hollywood produziu grandes filmes e grandes nomes em meio a uma enxurrada de mediocridades. Orson Welles, Woody Allen, John Ford, John Houston, George Stevens são de primeira. E dezenas de outros, muitos deles egressos da Alemanha nazista e que ajudaram a revitalizar a cinematografia americana com novo olhar, utilizando a experiência expressionista para robustecer novos gêneros como o cinema noir. Este exemplo mostra a importância de cinematografias periféricas independentes e o quanto é nocivo o monopólio quase esmagador que hoje exercem Hollywood e seu sistema.

Outro exemplo da saúde proporcionada por uma cinematografia que se distribui de forma democrática pelo planeta é o faroeste que se encontrava num beco sem saída e foi revitalizado por cineastas italianos como Sérgio Leone com a sua antológica trilogia do Homem sem Nome (Clint Eastwood). O cinema de horror é credor das experiências dos estúdios Hammer Film Productions de Londres, na Inglaterra. A Cinecittà, em Roma, pode ter beliscado um pedaço do mercado mundial, que Hollywood tomou para si, mas contribuiu com a diversidade para dar ao espectador mais opções, sem contar o gracioso e talentoso desfile de atrizes italianas que ainda hoje fazem parte da mitologia cinematográfica. O espaço ocupado por Gina Lollobrigida, Sophia Loren, Virna Lisi, Catherine Spaak, Ornela Mutti, Monica Vitti e dezenas de outras belas atrizes italianas não foi preenchido por ninguém. E como elas fazem falta. Não só elas. Os talentos de atores como o francês Alain Delon, o inglês Terece Stamp e do italiano Marcelo Mastroiani são provas da exuberância da diversidade. A realidade é que se juntarmos os dois pedaços, Hollywood ganha muito dinheiro e nos entope na maior parte das vezes com um monte porcarias.


Bela reflexão sobre o tema. Gosto de cinema!
Gostei muito do texto. Bem escrito, bem e
studado e com uma análise bem bacana do cinema mundial. Também fui da fase dos ótimos filmes que você citou. Parabéns, Edilson Pereira.
Bom, muito bom mesmo.