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Copa do Mundo: o que acontece no cérebro de torcedor?

14 de junho de 2026 por Elisiê Peixoto Deixe um comentário

Janaina Aparecida Tintori

Foto: *Janaina Tintori é graduada em Enfermagem, Mestre e Doutora em Ciências e professora universitária do curso de Enfermagem do Centro Universitário Internacional Uninter.

O futebol deixou de ser apenas um esporte e virou um fenômeno social, cultural e psicológico de alcance global. Na copa, estima-se que bilhões de pessoas acompanhem os jogos, envolvendo-se emocionalmente com as equipes. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, em 2025, demonstrou que assistir a partidas de futebol altamente estressantes pode mais que dobrar o risco de eventos cardiovasculares agudos, como infarto e arritmias, particularmente em indivíduos vulneráveis.

Nesse contexto, compreender por que torcedores experimentam emoções intensas — como euforia, raiva, ansiedade e frustração — tornou-se objeto de estudo da neurociência, da psicologia e das ciências sociais.

O sistema de recompensa: quando vencer é prazer

Um dos principais mecanismos envolvidos na experiência do torcedor é o sistema de recompensa cerebral. Estudos utilizando neuroimagem da equipe de Butler, demonstram que assistir a jogos do time preferido ativa regiões associadas ao prazer, como o estriado ventral, especialmente em momentos de vitória.

Esse fenômeno é conhecido como prazer vicário, no qual a pessoa experimenta recompensas emocionais como se estivesse diretamente envolvido na ação. Por outro lado, derrotas podem levar à redução da atividade em regiões relacionadas ao controle emocional, contribuindo para comportamentos impulsivos e reações exacerbadas.

Emoção em alta intensidade: o cérebro sob pressão na Copa

As emoções vivenciadas durante um jogo são rápidas, intensas e frequentemente imprevisíveis. A rivalidade entre equipes potencializa essas respostas, promovendo alterações dinâmicas no cérebro em questão de segundos. Pesquisas da Sociedade de Radiológica da América do Norte indicam que o equilíbrio entre sistemas de recompensa e controle cognitivo pode ser rapidamente reconfigurado conforme o desempenho do time.

Durante derrotas importantes, há evidências de diminuição na atividade do córtex cingulado anterior dorsal, área associada à regulação emocional e tomada de decisão. Essa redução pode explicar por que torcedores, em situações extremas, apresentam reações desproporcionais, como agressividade ou comportamentos impulsivos.

Pertencimento e rituais: a dimensão social do torcer

Torcer não é apenas uma experiência individual, mas também profundamente coletiva. Assistir a jogos, vestir camisas, cantar hinos e participar de celebrações são rituais que reforçam o sentimento de pertencimento, e a Copa do Mundo evidencia esse coletivo muito bem.

Do ponto de vista neurobiológico, esses comportamentos estão associados à liberação de endorfinas, substâncias relacionadas ao bem-estar e à coesão social. Assim, o futebol atua como um importante mecanismo de integração social, reduzindo sentimentos de isolamento e promovendo vínculos entre as pessoas.

Quando o envolvimento se torna risco

Estudos internacionais e também da USP de Ribeirão Preto, refletem que embora o envolvimento com o futebol possa trazer benefícios sociais e emocionais, há situações em que esse engajamento se torna excessivo. A hiperidentificação com o time pode levar a prejuízos não só na regulação emocional, como aumento da agressividade e dependência psicológica dos resultados esportivos, mas também clínicos.

Situações de tensão extrema — como disputas por pênaltis, gols decisivos ou derrotas inesperadas — estão associadas a aumentos súbitos da frequência cardíaca e da pressão arterial.

Do ponto de vista fisiológico, essas reações são mediadas pela ativação do sistema nervoso simpático e pela liberação de adrenalina e noradrenalina. Embora esse mecanismo seja adaptativo, sua ativação intensa e repetida pode representar um risco, especialmente para indivíduos com doenças cardiovasculares pré-existentes.

Durante jogos importantes, é normal sentir ansiedade, alegria e tensão. Mas emoções muito intensas podem trazer riscos à saúde — principalmente para quem já tem problemas cardíacos.

American Heart Association, em 2024 citou estratégias simples para auxiliar nesse processo, como a prática de respiração controlada em momentos de maior tensão, a manutenção de hábitos saudáveis durante os jogos — incluindo alimentação equilibrada e consumo moderado de álcool — e a conscientização sobre os próprios limites emocionais.

Além disso, buscar assistir às partidas em ambientes acolhedores e socialmente positivos pode contribuir para transformar a experiência em um momento de lazer, e não de sofrimento.

Durante os jogos da Copa do Mundo, o comportamento do torcedor revela aspectos fundamentais do funcionamento do cérebro humano. Esses processos tornam-se ainda mais evidentes, mostrando que, no campo ou nas arquibancadas, o jogo também acontece dentro do cérebro, segundo as pesquisas de Zubernis.

Que comecem os jogos!

 

 

Arquivado em: Comportamento Marcados com as tags: #amorpelotime, #copadomundo2026, #emoçãonatorcida, #futebol #torcedor

Sobre Elisiê Peixoto

Elisiê Peixoto foi colunista da Folha de Londrina durante 18 anos, lançou cerca de 30 livros. Atuou num programa semanal da extinta TV Mix, escreveu para diversas revistas, trabalha como jornalista e escritora na Editora Mondo. Como colaboradora da Ong Nós do Poder Rosa escreveu cinco livros em prol das causas da mulher. Atua junto ao departamento de marketing do Roberta Peixoto Academy.

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