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Relacionamento homoafetivo: o outro lado da moeda

17 de janeiro de 2023 por Claudia Costa 16 Comentários

Histórias de pessoas que viveram casamentos heterossexuais, mas que terminaram seus relacionamentos e vivem relações homoafetivas.

Imagem: Pixabay

                                               

AMAR

“Que pode uma criatura senão,

 entre criaturas, amar?

Amar e esquecer, amar e malamar

Sempre e até de olhos vidrados, amar?”

Carlos Drumond de Andrade

 

Por Cláudia Costa

Os personagens desta matéria são pessoas que viveram relações heterossexuais em seus casamentos, mas que após terminarem seus relacionamentos vivem uma relação homoafetivas.

Esses depoimentos ajudam a gente refletir sobre a vida e as relações afetivas. Acreditamos que não temos o direito de aprovar ou não qualquer tipo de relacionamento. Mas , temos o DEVER de RESPEITAR as escolhas de cada indivíduo.  Essas pessoas trabalham muito para sobreviverem,  são pais, mães, avôs que amam suas famílias e não merecem ter que enfrentar nenhum obstáculo ou dificuldades por causa da sua orientação sexual. O preconceito afasta, discrimina e dificulta a vida das pessoas.

PRESSÁGIO

“O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar… “

Fernando Pessoa

Nos últimos tempos, várias pessoas conhecidas do público têm falado sobre seus relacionamentos homoafetivos, depois de terem vividos casamentos heterossexuais. Recentemente, em entrevista à revista Veja, a jornalista Leilane Neubarth falou sobre a sua sexualidade: ” Não, eu nunca imaginei que me apaixonaria por uma mulher. Algumas pessoas me falavam: ‘Ah, então você sempre foi gay e foi infeliz porque era casada com um homem’. Não! Eu era feliz com minha vida sexual, amorosa, matrimonial. Só que aí eu me separei e, de repente, as coisas começaram a acontecer e surgiu essa outra emoção, outro sentimento, uma outra atração que eu nunca tinha pensado”, disse a apresentadora, que já foi casada por duas vezes com homens e tem dois filhos.”.  Outra pessoa famosa que está vivendo um romance homoafetivo é a atriz Maetê Proença. Ela está namorando a cantora Adriana Calcanhotto. Poderíamos citar inúmeros casos de personalidades como o ator Sérgio Mamberti, Lulu Santos, dentre tantos ,que estão vivendo relacionamentos com pessoas do mesmo sexo. Mas, no caso dessa matéria os entrevistados não são pessoas famosas, mas brasileiros comuns, que levam uma vida caseira, familiar e de muito trabalho.

Imagem: Pixabay

Ao ouvir cada depoimento procuramos agir com empatia e respeito, pois eles falam sobre suas vidas, angustias e intimidades. Desejamos  que esta matéria e os depoimentos ajudem aos leitores a refletirem sobre a vida e a felicidade.

A paulista Maria Lucia, 61 anos, professora aposentada, morou por muitos anos no Paraná, mas atualmente mora no interior do estado de São Paulo. Ela ficou casada com Márcio,  profissional liberal, por 14 anos, mas entre namoro, noivado e casamento foram 28 anos de convivência. O casal teve uma filha, Laura, que na época da separação estava com 13 anos.

Maria Lucia explica que na adolescência e nem na vida adulta havia se interessado por uma pessoa do mesmo sexo. “Nunca olhei para uma outra mulher com interesse. Na época do meu primeiro relacionamento homossexual, eu não estava feliz no meu casamento. Me sentia sozinha do ponto de vista afetivo. O meu marido era muito ausente, viajava muito a trabalho e acabou acontecendo de eu me envolver com uma colega de trabalho. Acredito que o motivo inicial pode ter sido carência afetiva e essa amiga, a Malu, homossexual assumida, era uma pessoa muito atenciosa, carinhosa, sedutora e …simplesmente aconteceu. “

Quando tivemos nosso envolvimento eu quase enlouqueci, vivenciei um grande conflito, fui parar no psicólogo”, conta a professora sobre o dilema que viveu. Por outro lado, ela diz que não queria abrir mão do relacionamento que estava vivendo, pois era infeliz no seu casamento. Maria Lucia é uma bela mulher, comunicativa, cozinheira de mão cheia, sempre esteve rodeada pelos amigos que conquistou ao longo da vida. Toda semana o seu apartamento era ponto de encontro dos amigos que iam saborear um rodízio de pizza, preparada pela anfitriã.

Mas o que podia ser apenas um caso sem consequência acabou tomando grandes proporções na vida de Maria Lucia. O marido começou a desconfiar das mudanças de comportamento dela e acabou descobrindo o romance da esposa. Maria Lucia nunca confessou para Márcio que estava relacionando-se com uma mulher. O casamento chegou ao fim, com ameaças e muito desgastes. A vida da dela deu uma reviravolta, inicialmente pelas dificuldades financeiras e o fato criar a filha sozinha. “Eu e a Laura fomos fazer terapia”, diz ela.

O relacionamento da professora e Malu não foi para frente, o que provocou grande sofrimento na professora. “Eu fiquei muito deprimida, quase “morri” de tanta tristeza. Chorava muito. Não entendia por que ela se afastou de mim”, relembra.

Uma outra vida

Tempos depois, a professora conheceu, através do intermédio de outra colega de trabalho, a veterinária Priscila.  As duas tiveram um relacionamento de 20 anos. Elas foram morar juntas e viveram algumas crises comuns nos casamentos heterossexuais. Há dois anos e meio, elas colocaram um ponto final na relação.

Maria Lucia não ficou muito tempo sozinha, atualmente está namorando a empresária Fernanda, homossexual assumida, que também foi casada e tem um casal de filhos.  A professora diz que nunca mais voltou a se relacionar com um homem. “Simplesmente eu não conheci nenhum homem interessante que me chamasse atenção”, salienta.

Foto: Pixabay

A visão da filha

A empresária Laura, 33 anos, casada, mora em São Paulo capital. Ela é a filha de Maria Lucia que na época da separação dos pais estava com 13 anos. Segundo Laura, filho nenhum deseja ver a separação dos pais, mas o mais importante para ela era ver seus pais felizes:

“Minha mãe não era feliz e a felicidade dela é o que importa para mim. Meu pai sempre foi ausente”, salienta Laura que morou muito tempo na Alemanha, onde foi fazer intercâmbio durante a adolescência e depois acabou cursando a Universidade, em Berlim. Depois de formada Laura, conheceu várias culturas nas viagens que realizou por diversos países como o Japão. Laura conta que a mãe só abriu o “jogo” sobre o seu relacionamento homoafetivo quando ela estava com 17 anos. “Minha mãe estava vivendo uma crise no relacionamento com a companheira e estava muito deprimida. Foi ai que me contou sobre seu namoro com a veterinária Priscila. Para mim foi um alivio, ela se abrir comigo. Eu já desconfiava, mas o fato dela conversar comigo foi muito importante. Na minha adolescência eu fiquei um pouco em dúvida, mas como nossa casa sempre vivia cheia de amigos, achei que era apenas mais uma amizade dela. Sempre fomos amigas, minha mãe é uma excelente mãe e eu quero a felicidade dela”.

A empresária diz que ficou um pouco preocupada quando foi contar para o marido, o alemão Rudolf, sobre o namoro homoafetivo da sua mãe. “A reação dele foi surpreendente. Me disse: tudo bem, não vejo nenhum problema nisso”, conta  Laura que é casada há 12 anos. Segundo ela, na Alemanha e na Europa em geral , onde morou por muitos anos, “as pessoas vivem suas vidas, não se preocupam com a vida e as escolhas dos outros. As pessoas se apaixonam por pessoas, e não se é por um  homem ou mulher. Isto é um pensamento comum na geração de hoje” .

A empresária e o marido, sua mãe e a namorada saem juntos em São Paulo para jantar quando as duas estão na capital paulista. “Elas estão apaixonadas e é muito bom vê-las felizes”.

Imagem: Pixabay

Comecei a sentir outras necessidade

O paranaense Luiz Fernando, 64 anos, gerente financeiro aposentado, casou-se muito jovem, aos 21 anos. Ele e a esposa Marilia foram casados durante 20 anos, e tiveram um casal de filhos, Roberto e Flavia.

Ele diz que durante o casamento sempre convidava a esposa para assistir filmes eróticos no antigo cinema do shopping Com-Tour, de Londrina. Segundo Luiz Fernando, quando  ele estava com 42 anos, percebeu mudanças no seu interesse sexual. “Comecei a sentir outras necessidades”, explica.

A separação do casal aconteceu em 1997 e não foi muito amigável, pois a esposa ouviu ele conversando com um rapaz ao telefone. “Na época, o meu filho tinha 20 anos e minha filha 16 anos. A preocupação era com eles”, conta o aposentado que é avô de três netos.

Para  Luiz Fernando não foi difícil assumir sua bissexualidade. “Meu filho ficou revoltado comigo. Tivemos uma discussão feia. Ele foi morar na Europa, mas felizmente hoje em dia nos damos muito bem. Ele voltou ao Brasil e se casou, minha nora teve um papel importante na nossa reaproximação”, ressalta.

Há 12 anos ele mantém um relacionamento homoafetivo com o músico Rafael  “O  meu filho Roberto e o Rafael se dão muito bem. Quando ele vem em nossa casa, tocam violão juntos e conversam muito.  Eles se tratam com muito respeito”, diz Luiz Fernando.

*** Todos os nomes dos personagens desta matéria são fictícios.

Arquivado em: Destaque, Entrevistas Marcados com as tags: #portalideiadelas, amor, Escolhas, gay, homem, mulher, pessoas, relacionamento #homoafeitivo #amor #preconceito #tabu #sexualidade #felicidade #casal #vidaamorosa #vidaadois #descobertas #prazer #respeito, trans, vidaafetiva

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

Reader Interactions

Comentários

  1. Ruth Costa Meira diz

    25 de outubro de 2021 em 21:44

    Muito bacana a pauta do portal. Parabéns, Claudia!!

    Responder
  2. Ruth Costa Meira diz

    25 de outubro de 2021 em 21:47

    Muito bacana a pauta. Parabéns, Cláudia!!

    Responder
  3. edra diz

    26 de outubro de 2021 em 08:00

    Parabéns! Matéria importante para abrir a venda para novas formas de amar, e ser feliz. É o que importa no final das contas. Afetividade é uma coisa louca e importante na vida.

    Responder
  4. Dayse Betania da Silva diz

    26 de outubro de 2021 em 08:58

    Acho que finalmente estamos começando a trilhar o caminho do respeito à escolha mais importante da vida das pessoas: a quem amar.
    Parabéns Claudia!

    Responder
  5. Itamar Vieira diz

    26 de outubro de 2021 em 10:33

    Belos relatos. Tema importante.

    Responder
  6. Almir Escatambulo diz

    28 de outubro de 2021 em 21:49

    Boa noite Cláudia eu tive uma amiga na qual eu fui padrinho de casamento dela e depois de seis meses de casada ela largou o marido e começou a se relacionar com uma outra mulher Hoje ela está muito bem Vou fazer cinco anos que elas estão juntas. Eu creio que isso é questão de natureza mesmo independente da sexualidade

    Responder
  7. Brasília diz

    5 de março de 2022 em 19:43

    Muito interessante!
    Gostei da forma que foi abordado esse tema.

    Responder
    • Claudia Costa diz

      5 de março de 2022 em 19:52

      Obrigado Brasilia pelo seu feedback. abraços

      Responder
  8. Ana Cristina Nóbrega diz

    5 de março de 2022 em 20:54

    Matéria muito bem feita e oportuna. Parabéns

    Responder
    • Claudia Costa diz

      5 de março de 2022 em 20:59

      Obrigada por seu comentário! É importante saber a opinião dos nossos leitores. Abraços Ana

      Responder
  9. Quintino diz

    16 de outubro de 2022 em 16:41

    Muito interessante e mostra que o importante é está feliz!

    Responder
  10. Roger diz

    17 de janeiro de 2023 em 11:22

    Não tenho discriminação
    contra ninguém, contudo nao aconselho ninguém se envolver em relações homoafetivas pois esta claramente escrito na Bíblia que tal prática è algo detestavel para Deus e sera punida com a morte assim como para outras fornicaçoes.

    Responder
  11. Janice diz

    17 de janeiro de 2023 em 14:25

    Adorei a matéria. São inúmeras histórias a contar. Não temos mais tempo para não nos colocar em primeiro plano. A busca da felicidade é agora. Ninguém além de nos podemos trazer a felicidade.

    Responder
  12. thamiris diz

    20 de fevereiro de 2024 em 22:59

    tenho 21 anos, fui casada com um homem durante 5 anos…tenho dois dois filhos, um casal..
    me apaixonei por uma colega de trabalho, n0s aproximamos, ela se separou do marido, pois diz estar muito apaixonada por mim também …
    agora minha mãe ao descobrir, surtou me diminuiu, não quer saber de mim, mandou eu sair de casa, disse coisas que me deixou triste…………………
    como eu faço

    Responder
    • Claudia Costa diz

      23 de fevereiro de 2024 em 08:29

      Bom dia!
      Busque um suporte psicológico em sua cidade. Encontre alguma entidade para te dar um acolhimento e suporte sobre esse assunto

      Responder
    • Marisa diz

      23 de fevereiro de 2024 em 10:36

      Você é mto jovem e se casou mto jovem tbem.. Sua mãe é de outra geração e se preocupa com seu futuro e isso tudo assusta um pouco . Vá com calma e não hesite em procurar ajuda de psicólogo, que poderá dar o suporte necessário. Até nas unidades básicas de saúde há psicólogos que você pode agendar. Espero que fique bem !

      Responder

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