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Talvez Miguel e Rafael; alguém chorou na mesa de lata

16 de outubro de 2017 por Claudia Costa Deixe um comentário

Por Antônio Mariano Júnior

 

Disse que não dava conta; sinto muito, boa sorte, um abraço de amizade.

Que o remorso estava carcomendo o juízo, as firmezas das carnes e miolos.

Que tudo poderia se avolumar e solicitar adjetivos, futuramente.

(…)

Colocou os óculos escuros; o máximo de comoção

a que se permitiu diante daquele encantado coração chorando.

Pulsando sobre a lata amarela

da mesa daquele boteco vesgo.

(…)

Pisou no coração de um homem apaixonado.

Sabia pisar com mais frequência nos corações femininos.

Tinha cacoetes de macho, embora não passasse

de um homem. Como outros quaisquer do planeta.

 

(…)

Possuía predicados, verbo também.

Um sujeito que apreciava seus semelhantes.

Indistintamente.

(…)

Foi de muitas mulheres.

Arfou no masculino também.

(…)

Gostava mesmo de elixires femininos.

Não mentia aos seus impulsos.

Visgava fartamente na terceira pessoa,

da cintura para baixo, ante uma fêmea em alta resolução.

Era viril.

(…)

Esfolou-se nos braços daquela mulher.

Daquela outra também.

Daquele, igualmente.

(…)

A primeira o amou com veemências de uma fêmea em faíscas;

ele a amou com trovas e chocolates; com assiduidade.

Com mais amor do que medo.

(…)

Assustada, disse não.

Era distinta; optou pelo marido.

(…)

 

A outra o amou com contornos suficientes.

Abria-se muito, sentia poucos espasmos cotidianos,

inclusive de quem a apresentava como futura esposa.

(…)

Assustada, disse não.

Preferiu gozar a vida.

 

(…)

 

No Bar Espetaria.

No balcão. Sentiu um joelho roçando no seu.

Tinha bom hálito, bons dentes, uma argola no dedo esquerdo;

ostentava tatuagens e protuberâncias naquele corpo moreno.

Sorveram-se.

(…)

Assustado, disse não.

Tinha mulher, amante e filhos; não dava, meu!

(…)

Chorou mais que um homem comum, rogou pragas como

um macho atravessado por lança fatal.

Três vezes gritou aos céus.

(…)

Casou-se com uma mulher suficientemente apaixonada;

era suficientemente apaixonado pela… esposa.

Era inteligente. Bonita também.

Passeava pelas convenções sem quebrar telhas.

Sabia ser fêmea em cheiros, frestas e transparência.

(…)

Ele jogava peladas, às sextas;

ela discorria Jung com a mesma naturalidade

com que Ana Maria e aquela coisa falante dão dicas culinárias.

(…)

Ele uivava para a lua nas fases todas.

Em segredo.

Ela lia borras de café, intuía o futuro.

(…)

Posso sentar um pouco com você?

Fique à vontade, você é de casa.

(…)

Tornaram-se íntimos.

Um, da cintura para baixo.

Outro, corpoalmacoração.

Um sempre vacila mais.

(…)

Um deles, com asas alquebradas,

chorou na lata amarela.

Chorou demasiadamente humano.

(…)

O outro ajeitou as hastes dos óculos

escuros e entrou no Sol.

Derreteu as asas; retornou humano, finalmente.

(…)

Foram abatidos; voltaram certeiros.

Talvez sob o nome de Miguel e Rafael.

(…)

Seriam alcançados pelo amor mais adjetivado;

entre o céu e a terra, o sinal.

(…)

De uma queda, ao chão;

amalgamados pelo dedo em riste do Todo.

(…)

Cada um saberia dar a mão ao

terceiro anjo.

Na hora exata.

(…)

Haveria o silêncio dos grandes amores;

inclusive entre os iguais.

 

(…)

 

OBS:  Irene, Maria e talvez Miguel e Rafael. Encerra-se a trilogia dos inomináveis que precisaram desabar para morrer de amor. Qualquer semelhança com fatos e/ ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Certo?

 

LINKS

A Casa é o sorriso de Irene; a metáfora habitada, a coisa

 

A COMPLEXA HISTÓRIA DE MARIA, QUE NUNCA FOI COM AS OUTRAS

 

A breve trilogia dos que precisam desabar para morrer de amor

Arquivado em: Antonio Mariano Jr, Colunistas, Vale a pena

Sobre Claudia Costa

Claudia Costa foi editora Folha de Londrina, suplemento da Folha da Sexta, durante 13 anos, e há mais de 17 anos está atuando em comunicação corporativa e marketing. Trabalhou nas empresas Unimed Londrina, Sociedade Rural do Paraná e Unopar. Atua na assessoria de imprensa e comunicação para AREL, SINDICREDPR e diversos profissionais liberais, principalmente, na área da saúde e diversas áreas de prestação de serviço.

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