
Por Antônio Mariano Júnior
Disse que não dava conta; sinto muito, boa sorte, um abraço de amizade.
Que o remorso estava carcomendo o juízo, as firmezas das carnes e miolos.
Que tudo poderia se avolumar e solicitar adjetivos, futuramente.
(…)
Colocou os óculos escuros; o máximo de comoção
a que se permitiu diante daquele encantado coração chorando.
Pulsando sobre a lata amarela
da mesa daquele boteco vesgo.
(…)
Pisou no coração de um homem apaixonado.
Sabia pisar com mais frequência nos corações femininos.
Tinha cacoetes de macho, embora não passasse
de um homem. Como outros quaisquer do planeta.
(…)
Possuía predicados, verbo também.
Um sujeito que apreciava seus semelhantes.
Indistintamente.
(…)
Foi de muitas mulheres.
Arfou no masculino também.
(…)
Gostava mesmo de elixires femininos.
Não mentia aos seus impulsos.
Visgava fartamente na terceira pessoa,
da cintura para baixo, ante uma fêmea em alta resolução.
Era viril.
(…)
Esfolou-se nos braços daquela mulher.
Daquela outra também.
Daquele, igualmente.
(…)
A primeira o amou com veemências de uma fêmea em faíscas;
ele a amou com trovas e chocolates; com assiduidade.
Com mais amor do que medo.
(…)
Assustada, disse não.
Era distinta; optou pelo marido.
(…)
A outra o amou com contornos suficientes.
Abria-se muito, sentia poucos espasmos cotidianos,
inclusive de quem a apresentava como futura esposa.
(…)
Assustada, disse não.
Preferiu gozar a vida.
(…)
No Bar Espetaria.
No balcão. Sentiu um joelho roçando no seu.
Tinha bom hálito, bons dentes, uma argola no dedo esquerdo;
ostentava tatuagens e protuberâncias naquele corpo moreno.
Sorveram-se.
(…)
Assustado, disse não.
Tinha mulher, amante e filhos; não dava, meu!
(…)
Chorou mais que um homem comum, rogou pragas como
um macho atravessado por lança fatal.
Três vezes gritou aos céus.
(…)
Casou-se com uma mulher suficientemente apaixonada;
era suficientemente apaixonado pela… esposa.
Era inteligente. Bonita também.
Passeava pelas convenções sem quebrar telhas.
Sabia ser fêmea em cheiros, frestas e transparência.
(…)
Ele jogava peladas, às sextas;
ela discorria Jung com a mesma naturalidade
com que Ana Maria e aquela coisa falante dão dicas culinárias.
(…)
Ele uivava para a lua nas fases todas.
Em segredo.
Ela lia borras de café, intuía o futuro.
(…)
Posso sentar um pouco com você?
Fique à vontade, você é de casa.
(…)
Tornaram-se íntimos.
Um, da cintura para baixo.
Outro, corpoalmacoração.
Um sempre vacila mais.
(…)
Um deles, com asas alquebradas,
chorou na lata amarela.
Chorou demasiadamente humano.
(…)
O outro ajeitou as hastes dos óculos
escuros e entrou no Sol.
Derreteu as asas; retornou humano, finalmente.
(…)
Foram abatidos; voltaram certeiros.
Talvez sob o nome de Miguel e Rafael.
(…)
Seriam alcançados pelo amor mais adjetivado;
entre o céu e a terra, o sinal.
(…)
De uma queda, ao chão;
amalgamados pelo dedo em riste do Todo.
(…)
Cada um saberia dar a mão ao
terceiro anjo.
Na hora exata.
(…)
Haveria o silêncio dos grandes amores;
inclusive entre os iguais.
(…)

OBS: Irene, Maria e talvez Miguel e Rafael. Encerra-se a trilogia dos inomináveis que precisaram desabar para morrer de amor. Qualquer semelhança com fatos e/ ou pessoas reais terá sido mera coincidência. Certo?
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A breve trilogia dos que precisam desabar para morrer de amor


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